Antes (e depois) de tua chegada
   



BRASIL, Mulher, de 26 a 35 anos, Portuguese, English
Histórico
Outros sites
Brasilia eu vi
Amigas do Parto
Terra Estranha
Um pouquinho de tudo

 


O Susto

Rodamos 30 e tantos quilômetros de estrada asfaltada e mais 12 de terra para chegarmos à fazenda Chapada Imperial, o ponto mais alto do Distrito Federal, com 1.342 metros de altitude. Mesmo com as janelas fechadas, era possível sentir o cheiro forte da poeira de barro dentro do carro. Do chão às árvores que ladeavam a esburaca estrada, a cor vermelha era uma só. O descampado seco do cerrado oferece uma vista infinita do horizonte plano. São as coisas bonitas daqui. O simpático caminho já dentro da propriedade onde passaríamos um domingo perfeito era menos poeirento. A fazenda é um enclave de cachoeiras límpidas, repleta de árvores altas, sombra e animais silvestres se readaptando à natureza. Araras voam rasteiro sobre nossas cabeças, tucanos abusados tentam comer do nosso prato, pavões passeiam livres como se fossem cachorros vira-latas e papagaios sobem nos nossos dedos quando convidados. Na sede da fazenda, um intrincado enlace de cabos de aço e madeiras indica a possibilidade de fazer arvorismo e tirolesa. Quando viu outras crianças descendo na tirolesa, que devia estar a uns oito metros do chão, Letícia pediu para ir. Edu me perguntou se ela podia descer no colo dele, naquela cadeirinha que de baixo parecia mais frágil que o mais fino dos galhos acima da minha cabeça. Sou medrosa, nunca fui chegada a esportes radicais e tenho um medo danado de altura. Primeiro eu disse não, óbvio, que idéia de jerico. Aí o não foi cedendo, até que a super-mãe entrou em cena e disse “então tá, mas eu vou primeiro para saber se é realmente seguro”. A escada que leva à plataforma de madeira construída no alto da árvore é torta, íngreme e estreita. Tem vãos largos e um corrimão praticamente suspenso no ar. Duas palafitas é tudo que sustenta a estrutura toda no chão. O resto vai preso na árvore. Um desafio à física e à minha compreensão sobre resistência de madeiras. Confio mais nos subprodutos do aço. Não há grades nas laterais ou qualquer coisa que separe a gente do vácuo. Subi nervosa com a alma paralisada na garganta. A escada fica ainda mais estreita quando vai chegando perto da plataforma. Lá em cima, me agarrei ao tronco, só para garantir, enquanto tentava imaginar quanto tempo eu agüentaria ficar pendurada caso tudo aquilo ruísse debaixo de mim. Superado o medo de altura, desci, sob aplausos de Letícia. Confesso que achei bem divertido. Depois foram Eduardo e Letícia, que chegou no chão com a cara mais feliz do mundo, pedindo para ir “de novo e sozinha”. Um delírio. Claro que não, filha.

Instantes mais tarde, quando nos preparávamos para almoçar, Letícia saiu correndo em direção ao parquinho, onde ela já tinha brincado sozinha. Quando olhei de novo, vi que ela tinha passado direto pelo balanço, e seguia perigosamente para a escada íngreme, torta e estreita. Saí em disparada. E ela também. Quanto mais eu me aproximava, mais rápido ela subia, soltando as mãozinhas do corrimão acima de sua cabeça, acelerando a passada de pernas pelos degraus que até eu considerava altos demais. Eu ia chegando perto sem acreditar que ela insistia em subir, mesmo comigo atrás implorando  para ela parar, em vão. Letícia ria achando tudo uma grande brincadeira. Consegui finalmente agarrar sua camisa quando já estava a mais de 4 metros do chão. Peguei firme no seu braço e descemos com cuidado. Meu nervosismo era tão grande que eu mal conseguia brigar com ela. Na primeira tentativa de falar, chorei, nervosamente. Letícia fez voz fininha de neném, pediu para dormir na rede, pediu colo, pediu chupeta, tentou fazer outra gracinha qualquer, que, em sua lógica neném, era a maneira de fazer eu parar de chorar, mas eu estava irritada e nervosa demais para achar graça nos truques de sempre. À noite tive insônia, imaginando que desfecho aquela cena, quase fictícia, poderia ter tido. Estresse pós-traumático. Irritação, medo, incapacidade. Depois uma fraqueza imensa tomou conta de mim ao imaginar as escadas estreitas e perigosas que Letícia poderá ter de cruzar ao longo de sua vida, sem que eu possa fazer nada. Os desdobramentos estarão muito além de mim, do pai, de qualquer um, dela mesma. Tudo bem, mas ao menos enquanto você for pequena, Letícia, me obedeça, por favor.

Escrito por Bebel às 12h01
[] [envie esta mensagem] []




O orgulho

Eu estava atrasada para o trabalho, acordara indisposta, demorei a sair, e, quando desci, Letícia já tinha voltado da capoeira. Estava no jardim brincando com uma amiguinha e a babá. Quando me viu, ela correu na minha direção, escalando a ladeira de grama onde não deveria pisar, e me abraçou. Virou sorridente para a amiguinha e me apresentou: "Sofia, essa é a minha mamãe". Como a Sofia não tinha dado muita importância a isso, repetiu, até Sofia também vir me abraçar. Algo naquele sorriso e na espontaneidade do anúncio, deixou-me assim de...bola cheia. Fui toda inchada trabalhar lembrando da ênfase dada ao "ESSA é a minha mamãe". E ESSA é a minha filha.



Escrito por Bebel às 15h46
[] [envie esta mensagem] []




A porta e o violão

Não sei quando exatamente Letícia começou com essa história de querer fazer tudo sozinha, mas posso indicar três marcos em seu caminho rumo à autonomia: o dia em que ela pulou o berço, num claro sinal de que era hora de passá-la para a cama; o dia em que ela abaixou as calças, fez xixi no penico e jogou o resultado de sua independência no meu vaso (não sei a data exata, mas posso reviver o temor que senti de que aquele xixi tivesse se espalhado pelo chão do banheiro); e o dia que ela destrancou a porta da sala. Isso aconteceu hoje de manhã.

Estávamos de saída para a capoeira, onde ela é quase a mascote da turma (as crianças têm de 5 anos para cima, e ela, só 2 anos e 7 meses). Letícia se adiantou enquanto eu fazia não sei o quê e abriu a porta. “Mamãe, eu abri a porta!”, disse-me, em tom de “lá lá lá lá lááááá lá”. E ficou assim por alguns instantes dentro do elevador se vangloriando do feito. “Eu tonsegui-i. Eu tonsegui-i, lá lá lá lá lááááá lá”. Tive que rir, até a derradeira conclusão. “Mamãe, eu já tô grande para abrir a porta...”.

Em casa, agora, há ordens expressas para tirar a chave da porta. Imagina esse tiquinho fugindo de casa!

 

No mesmo dia em que destrancou a porta, ela compôs sua primeira música ao violão. De repente, ouço Letícia começar um confuso enredo iniciado por um indefectível meu amor (musical, não?) e a história do lobo mau que ia correr, cair e escorregar. Ela segurava o violão no colo na posição esperada de uma musicista, com as duas mãos, uma badalando umas poucas notas, a outra apoiando, enquanto inventava os versos. Bem, nós filmamos esse momento único. Se ela um dia virar uma compositora famosa, nosso vídeo caseiro valerá milhões. Mas seja qual for seu futuro profissional, para nós já vale milhões de emoções.



Escrito por Bebel às 23h14

[] [envie esta mensagem] []




Entrevista com os personagens

Letícia tem duas histórias preferidas, a da Branca de Neve e dos Três Porquinhos, contadas por mim e pelo Eduardo, necessariamente e invariavelmente. Se eu tento contar a do lobo com mania de assoprar a casa dos porquinhos, ela me corrige, reclama a versão do pai e me expulsa da cama. Cada qual com seu cada um.  Dito isso, e dito também que ela já ouviu cada uma dessas histórias uma boa quantidade de vezes, a novidade é a entrevista com os personagens. Detalhe: com os personagens maus, tipo o lobo e a madrasta. São, realmente, os mais intrigantes.

No meio da história da Branca de Neve, ela me interrompe e chama “caçador!”. Eu tenho que encarnar o caçador e dizer “o que foi, Letícia?”. Daí ela segue:

- Por que você levou a Branca de Neve pala a floresta?

- Porque a Rainha Má mandou.

Não satisfeita, ela chama a Rainha Má. “Rainha Má?”.  Lá vou eu encarnar a madrasta invejosa. “O que foi, Letícia?”, digo, com voz de rainha má.

- Po que você mandou o caçador levar a Branca de Neve pala a floresta? (o grau de complexidade dessa pergunta me surpreendeu)

- Porque eu não gosto dela.

- Por que você não gosta dela?

- Porque ela é muito bonita e isso me incomoda.

- Por que incomoda?

- Porque sou muito invejosa.

-Por que você é invejosa?

- Acho que não fui uma criança feliz.

- Por que você não foi uma criança feliz?

Letícia parece não ter limites para perguntar. Arrisco dizer que a rainha má nunca vez capoeira, balé, nem foi à piscina.

- Por que? – Letícia continua.

A mãe Bebel interrompe o interrogatório da rainha má.

- Filha ,vamos voltar para a história?

Ela concorda e me pede “então me conta a história da Branca de Neve”.

Olha, parece gozação. E eu acho que é.



Escrito por Bebel às 14h32
[] [envie esta mensagem] []




O cansaço

Num belo sábado, eu acordei às 11h. Havia dormido aproximadamente dez horas ou mais, com uma leve interrupção pelo choro de Letícia de manhã, logo abafado pela santa intervenção de alguém que estava ali para isso. Quando Eduardo a levou para o parquinho, o silêncio voltou a reinar e eu, a dormir.

Esse dia deixou marcas profundas em mim porque me dei conta do quanto eu poderia estar bem disposta se não vivesse cansada. A conclusão parece óbvia, mas não é. Me dei conta de que tenho acordado cansada, trabalhado cansada, malhado, comido e dormido cansada, como se o cansaço fosse um item irremovível da minha rotina, tipo eu respiro e tenho cansaço, como tenho cabelo, vontades, fome, curiosidades, sem de fato percebê-lo como um entrave na minha disposição... Restaurada, percebi que o cansaço tem sido um companheiro teimoso que se aproveita do fato de eu não dormir nem quatro horas seguidas todas as noites. Bem, não quero falar disso agora. Quero enfatizar o incrível poder de recuperação dos nossos tecidos. Bastou-me uma noite, umazinha para eu sair da cama sem aquela sensação de que um arado havia passado por mim. O corpo se recupera.

A paciência, enquanto isso, é treinada. Letícia anda nos testando. Insiste em fazer o que proibimos e testa olhando no olho mesmo, aguardando uma reação qualquer irada nossa. Minha vingança é dizer com a maior calma do mundo que ela não me atende, eu não a atendo também. No jogo de resistência, ela perde, chora e eu aguardo. Manha, choro, pirraça, tem vários nomes essas manifestações. Sempre me achei impaciente para esse tipo de coisa, mas li que é bom respeitar os sentimentos da criança, ainda que não concordemos com ele ou com os choros inventados. “Pode chorar, filha, tudo bem, você quer chorar?”. E ela responde:  “Eu quelo cholar só mais um pouquinho”. Meu dever é mostrar quem manda, o direito dela é chorar, então, ok ,vá em frente. Eu agüento porque não há nada que ela possa fazer para que eu deixe de amá-la absurdamente e incondicionalmente.

Eu olho para essa criança, que ora me provoca com choros forçados, ora me diverte com tiradas hilárias, e me lembro do tempo em que filhos eram um sonho ainda distante. Lembro-me de como trocávamos olhares cúmplices com ares de riso cada vez que deparávamos com uma criança batendo propositadamente com a cabeça na gôndola de um supermercado, ou quando comia algo improvável na primeira distração do adulto que a carregava, tipo, embalagem de papelão. Nós ríamos discretamente até das manhãs fabricadas que deixam tantos pais desconcertados com crianças-lagartixas esperneando no chão da loja, como se imaginássemos você, que nem existia, nos deixando em situação semelhante. Antecipávamos a alegria e o caos da lida com um ser pequeno, dependente, espontâneo e repleto de amor para dar. Eis você aqui de verdade, menina-canção, filha de mim, pacote completo, piada pronta com noites entrecortadas, um doutorado em administração de sentimentos humanos.  Está tudo perfeito. Melhor do que o imaginado. Eu só queria mais um sábado daquele.



Escrito por Bebel às 23h42
[] [envie esta mensagem] []




Ela é minha

Por vezes paro e olho para Letícia como se ela não fosse minha, porque não é mesmo. A mãe sai de cena e fica só o amor, sentado na platéia à sombra da luz voltada para ela. Nessas horas, vejo uma menina, de perninhas grossas, cabelos brilhantes, saudável e olhar sapeca. O amor me faz silêncio para vê-la brincar com o pai, ou fingindo decifrar a leitura. Com o dedinho, ela acompanha frases de um livro, enquanto inventa à sua maneira histórias que outro dia lhe contaram. Letícia, aos dois anos, queria saber ler, como não sabe pede "lê para mim". Quer pular de onde quer que seja e deu para reclamar nossa audiência para qualquer coisa. "Você quer ver, mamãe?". Mal sabe ela que eu queria ver tudo, o tempo todo. Que o amor por vezes carrega junto o medo, a onipotência, a vontade de controlar tudo para poder protegê-la. Nos tira da platéia para interferirmos no palco, quando deveríamos ficar ali, sem atrapalhar, a mãe e o silêncio, deste minuto em diante, para sempre. Mas, por enquanto, você é minha. Claro que é do papai também. Mas estou refletindo sobre o meu apego. Um dia ele cede.



Escrito por Bebel às 00h00
[] [envie esta mensagem] []




O fedor e suas variações

Letícia entra no banheiro e o pai está ocupado com suas necessidades.

- Hum, aqui tem chelo - ela diz -  Está mau cheloso.

Ela sai do banheiro, e fica com o nariz na fresta do batente.

-  Que fedor. Eca! - Letícia, ainda fazendo observações. E ainda completa: "Que fedolento".

Tenho que admitir, achei sensacional a aplicação de tantos adjetivos para uma única situação.



Escrito por Bebel às 23h31
[] [envie esta mensagem] []




Ah o amor...

Estamos no carro rumo a uma festa junina. Letícia num rompante apaixonado diz lá da cadeirinha dela.

- Mamãe, eu te amo.

- Eu te amo também filha.

- Papai, eu te amo.

- Eu te amo também Letícia - diz Edu.

Aí, ela tenta estabelecer outras relações e os pronomes atrapalham:

- Mamãe, papai me ama e te ama também. Papai me te ama. Tia Fávia me te ama. Tio Gelaldo me te ama. Júlia me te ama. Larissa me te ama. Todo mundo me te ama eu.

E dá para não me te amar uma criatura assim?

Estamos numa farmácia. Letícia me aguarda sentada num daqueles carrinhos de aluguel de shopping, mas dá de gritar.

- Mamãe, eu quelo tocolate.

Tento responder sem gritar, chego perto e digo: "peraí, filha, já vou te dar". Me afasto para buscar o que queria, ela grita de novo. "Mamãeeee, quelo tocolate, me dá tocolate".  "Ok, filha, já vai, tá?", tento mostrar a ela como conversar sem gritar.

Ela grita mais alto ainda. "MAMÃEEEEE....". Olho espantada para a gritaria. "EU TE AAAAAAAAAAAMOOOOOOOOOO".

A farmácia inteira riu, embevecida. Imagina eu...

 

-



Escrito por Bebel às 23h27
[] [envie esta mensagem] []




Vastas emoções

Amada filha,

Está passando rápido essa vida toda que temos pela frente. Você está com dois anos e meio e me surpreende dia após dia com suas observações. Fico com pressa de te apresentar o mundo e, cautelosa, vou aos poucos introduzindo temas novos nas nossas conversas. Eu não sei o quanto você entende, mas certamente capta mais do que imagino.

Ontem, cansada depois de muito correr por uma exposição, você pediu colo. Te carreguei até não poder mais. Quando te expliquei que estava cansada, você me inquiriu: “você num ‘toce’ meu carrinho pa eu dumi?”.

Outro dia te levamos ao Holiday on Ice. Lembrei de minhas idas ao Maracanãzinho. Só isso pode explicar a onda de emoção e as lágrimas que marejaram meus olhos quando o Pernalonga chegou ao palco. Você mal sabe quem é Pernalonga, mas me contou feliz que estava ali o coelhinho. Eu chorei. Gritou pela vovó quando o Frajola ameaçava comer o Piu-Piu e me perguntou, como sempre, curiosa e preocupada, onde estava o papai e a mamãe do gatinho, do coelhinho, do piu-piu, do “mau” (Diabo da Tasmânia) e daquele povo todo que patinava no gelo. Haja versões para te apresentar. Mas estávamos lá ao seu lado, seu pai, sua vovó e eu, no caso, submersa numa inexplicável comoção diante dos personagens que enfeitaram minha infância também.

Está tudo tão vivo na memória que fica difícil crer que tanto tempo tenha passado.  Bem-vindo tempo, porque é chegado o nosso tempo.

Beijocas

Mamãe

A gente já se conhece bem, eu acho. Hoje você chorou muito na hora de sair da piscina, claro, estava tão legal.  Expliquei que tínhamos pressa, afinal, papai ia viajar, a gente tinha que papar antes e tal. Não adiantou. Deixei você com seus desejos e lamentei não atendê-los. "Sinto muito, filha". Em casa, nada melhorava para entrar no banho. Você chorava e repetia que não queria sair da piscina. Te abracei e disse "nem eu". Aí você continuou chorando, batendo nas minhas costas de leve com a mãozinha, como se a consolada fosse eu. Aí te disse, "eu também não queria que teu pai fosse viajar", você chorou mais ainda e disse "nem eu...". Seu pai não viu a cena, tinha ido buscar o almoço, ou ele sairia ainda mais triste de casa. Quanta emoção para administrar, hein...Daqui a pouco, em uma semana, ele volta. ô saco.

 

 



Escrito por Bebel às 14h58
[] [envie esta mensagem] []




Sábias conclusões de uma neném

“Eu tô muito dodói. Tô com coceira no meu braço”

...

“Você tem um peito muito bonito. O meu é pequenininho”

...

“Eu quero uma irmã grande” (estávamos no vestiário da academia, enquanto uma neném de um ano abria o berreiro)

...

 Ainda no banheiro da academia, uma senhora a elogia.

- Você é muito linda.

- Essa é a minha mamãe. Ela também é muito linda.

...

“Eu tô muito pronta” (sobre ir para a aula de natação)

...

- Eu já comei.

- Eu comi - corrijo

- Nãooooo. Eu é que comi.

Ela não confunde mais eu com você.

“Eu não consigo voar”. Letícia chegando a uma conclusão triste depois de ver inúmeras vezes o filme Os Incríveis.

“Tetê, você não é superói.”

(Letícia dizendo para a babá uma verdade).



Escrito por Bebel às 14h47
[] [envie esta mensagem] []




A língua do T

- Mamãe, vem brincar tomigo?

- Já tomi. Tomi tudinho (comi).

Deixo Letícia brincando e vou para a cozinha. Daqui a pouco, ela aparece com um ar muito sério:

- Eu tô sozinha no meu tarto!

Agora, quando ela quer combinar algo, levanta o dedão e manda “tombinado?”

- Papai já tá em tasa.



Escrito por Bebel às 14h46
[] [envie esta mensagem] []




Mamãe e Letícia, segundo Letícia

Fica aqui um comentário de mãe que tem, pela primeira vez, uma criança de dois anos e meio em casa. Um dia eu disse que Letícia quase não fazia besteira, que não era do tipo que subia em mesa e se pendurava nas coisas. Eu disse? No mais, continuo me surpreendendo com a pequenininha.  Ela agora desenha uma figura ovalada e coloca dois olhos, um nariz e uma boca, representada por um longo e fino traço que ultrapassa as fronteiras do ovo. Tudo no lugar certo. Fora de contexto só umas pintas que ela costuma espalhar. Ela acha que gente tem que ter pinta. O desenho abaixo, por exemplo, ela disse que sou eu. “É a mamãe”. Como hoje é o dia das mães, resgatei a homenagem para tentar eternizá-la aqui no blog. Achei  genial. Ah, sim, e o desenho menor é ela.



Escrito por Bebel às 23h24
[] [envie esta mensagem] []




Pequena notável

Letícia apronta alguma para mim e me tira do sério.

- Olha aqui, não gostei, entendeu? Estou muito chateada contigo – esbravejo.

Ela me olha com a maior cara lambida, sorri e diz quase melodicamente: “eu não tô não”.

...................

 Comprei um cofrinho em gesso. “Vamos aprender a poupar, tá bem?”, propus. “Tá”, ela concordou, feliz da vida colocando moedinhas dentro. A poupança durou cinco minutos. Num ato de rebeldia extrema, ela fez uma pirraça e tacou o porquinho no chão. Diante da minha cara visivelmente contrariada, exclamou “ah...que pena”.  Essa neném está me testando...

....................................

Suas frases estão ficando cada vez mais longas e elaboradas. Outro dia me perguntou “cadê o ursinho puff que eu ganhei?”. O recorde, creio eu, foi a constatação de que “o sapo mora na lagoa e não lava o pé porque não quer”, dito fora da música. Ela encaixou a fala numa conversa, de forma bem natural.

.................................... 

O tal do Puff é aquele bonequinho vendido no Free Shop que derrama confetes de chocolate quando acionamos seu bracinho. Letícia adorou, por supuesto. Depois de se empaturrar de confetes, dei um basta. Era tarde, ela já tinha escovado os dentes, e tinha que parar uma hora. Chorou, reclamou, mas esqueceu. Instantes mais tarde, ela vira para mim, com cara de pidona, mostra o dedinho indicador e diz: “mamãe, quero só um, só um! Eu quero o verde”. Comovida com a esperteza da pirralha, fui lá, peguei o confete verde e dei para ela. Um minuto depois, ela faz a mesma cara, mostrou o mesmo dedinho e repetiu: “mãe, me dá só um? Só um?”.

....................................

Não sei se estamos estimulando demais a imaginação de Letícia, mas ela adora conversar com tudo. Começamos com a fantoche Pipa, aí passamos para os sapinhos de dormir, ursos, bonecos, o Pablo, do Backyardigans, todos conversam com ela, espontaneamente ou a pedidos. “Fala mamãe, faz o sapo falar”. A última estratégia foi recorrer a técnicas de ventríloquo (amador, claro) para convencê-la a deixar o xixi ir embora. Letícia prende até rebolar e não vi outra forma de ela parar com isso, se não convencendo-a de que o próprio xixi queria e precisava ir embora para o mar. “Letícia, sou eu, seu xixi!! Eu quero sair daqui”, digo eu, tentanto imitar uma voz do além da barriguinha dela. Letícia embarcou. Conversa com o xixi, com o cocô, e ai de mim se não entabular uma conversa escatológica. O importante é que funcionou. O próprio xixi conseguiu a auto-libertação. E foi feliz para o mar.



Escrito por Bebel às 23h26
[] [envie esta mensagem] []




Conversa de doido

A conversa ao telefone parece uma coisa de doido. Foi minha segunda viagem a trabalho e eu fiquei fora cinco dias, quatro noites. Intermináveis noites no interior do Pará.  Ligava várias vezes ao dia e falava com Letícia pelo menos numa das ocasiões, às vezes duas. Ela começa com um inesquecível “oi mamãeeeee...”.

    -       Tudo bem, Letícia?
    -       Tudo.
    Daí o que se segue é uma seqüência de perguntas sem respostas, comentários hilários, propostas inexeqüíveis, palavras inaudíveis.

    -       Fui no parque hoje.
    -       E você brincou com quem?
    -       Clarinha.
    Alguém vai soprando o que ela deve dizer e, confusa, diante das minhas perguntas que não casam com o texto sugerido, ela se sai com o seguinte:

    -       Tô de meia.
    -       Que meia, a da vaca?
    -       É.
    Silêncio.
    -       A girafa caiu.
    -       Caiu, filha? Pega ela.
    -       Caiu. Hahahaha. A girafa.
    Ela de novo:
    -       Papai é engraçado.
    -       Faço idéia. Ele te faz rir?
    -       Mãe, tem abelha.
    -       Abelha onde minha filha?
    (inaudível)
    -       Mamãe, olha só.
    -       Filha, pelo telefone eu não estou vendo nada. Você correu muito hoje?
    -       Correi. Olha só, mamãe - e sai correndo, com o telefone na mão, enquanto o pai tenta recuperar a ligação.

Soube depois que ela acordou dizendo que tinha abelha na cama (provavelmente por overdose de ursinho Pooh no DVD...).



Escrito por Bebel às 22h57
[] [envie esta mensagem] []




Minha menina

Letícia é, definitivamente, uma menina. Largou a fralda aos dois anos. Dorme de calcinha desde que voltamos das férias, em fevereiro, e só deixa escapulir o xixi na cama em raríssimas ocasiões. Os culpados somos nós que, distraídos, permitimos que a neném beba muita água tarde da noite. Para evitar contratempos, cortamos a última mamadeira. Ela continua dormindo tarde, mas deixei de fazer desse hábito um cavalo de batalha. Como achar ruim chegar em casa e ser recepcionada na porta por uma filha festiva cheia de vontade de conversar? “Mamãeeeee...chegou mamãe? Chegou?”, ela grita de dentro de casa, quando ainda estou tentando abrir a porta. Eu abro com cuidado para não derrubá-la. “Chegou mamãe? Chegou?”, ela insiste sorrindo feliz, enquanto vira a bochecha para um beijinho e joga o que deveria ser meu para longe.

“Vem bincar tomigo, vem, mamae. Dá mão. Vamo lê livu?”.

Claro que eu vou, digo, enquanto saio andando e largando a bolsa no chão e sapatos pelo caminho, ela segurando firme meus dedos de qualquer jeito. Eu deveria lavar as mãos, mas ela não deixa. O tempo urge enquanto ela cresce e fala. Não podemos perdê-lo em coisas menores. Eu puxo conversa, pergunto como foi o dia, quem ela viu no parque. Ela atropela as informações, larga frases pela metade. Olha para o lado buscando palavras que desconhece e confirma ter encontrado com as amigas que viu há dois dias. Hoje, ontem, uma semana atrás...que diferença faz? Todas estiveram e estarão no parque qualquer hora dessas.

“Mamãe não tomou banho não? Ainda não?”, ela comenta, quando eu peço para ela deixar eu tomar banho. “Posso, filha?”. “Pode”, ela diz, sem muita convicção, para choramingar assim que eu ameaço deixar o quarto.

A hora do sono anda muito tarde. Deitamos juntas para o ritual da historinha e da cantoria lá pelas 22h e ficamos perdidas em gargalhadas sem fim. E daí que ela não quer dormir? Eu invento tanta melodia que sou incapaz de reproduzir novamente um só verso. Nem a letra. Às vezes fica bom, às vezes ruim, mas que diferença faz?

“Mamãe...”, ela cochicha no escuro do quarto. “Eu te amo...papai também”. Penso que ela ama o papai também ou que ele me ama também. A frase de dupla interpretação é perfeita. Eu retruco, replico, respondo. Depois tenho que parar, sob risco de a declaração de amor varar madrugada adentro. De repente, tudo se faz silêncio. Deixo Letícia cochichar sozinha até desistir da conversa. Às vezes ela senta na cama repentinamente, ensaiando uma palhaçada de neném. Fica inventando sons com a boca para ver se eu rio. Quando volta a deitar, finalmente boceja, vira para o lado, suspira e dorme. Até de manhã, quando será ainda mais menina.

Escrito por Bebel às 16h39
[] [envie esta mensagem] []


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]