Antes (e depois) de tua chegada
   



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Complexo de Eletra

Letícia faz de tudo para não dormir

 

Eu: Letícia, chega! Tá na hora de mamãe e papai ficarem sozinhos, porque nós somos um casal feliz, que gosta de ficar junto, namorar e dar atenção um para o outro. Me ajuda e dorme.

Ela: Por que eu não sou casada com meu pai?

Eu: Porque filhas não casam com o próprio pai.

Ela: Com quem eu vou casar?

Eu: Com seu namorado, quando você crescer.

Ela: Mas como é que eu vou encontrar um namorado que nem o meu pai?
Eu: É difícil, mas a gente te ajuda a procurar um cara bacana.

Ela: Não querooooo. EU QUERO CASAR COM O MEU PAI!!

Eu: Tá bom, eu deixo, mas só se vocÊ dormir agora.

 



Escrito por Bebel às 00h06
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De Letícia para Carolina

- Tchau, bebê, depois eu te ligo!

 

- Ai, você é tão cheirosa. Esse cheiro me dá sono!

 

- Tudo da Carolina é cheiroso.

- Bebê, você só quer mamar, é?

 

 

 



Escrito por Bebel às 17h41
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Conclusões de Letícia

“Não é que quando a gente está suada a gente fica molhada?”

 

 

- Mamãe, tem buraquinho no bumbum para o cocô sair?

- Tem sim.

- É grande?

- Não, é pequenininho.

- Mas como o cocô sai?

- O buraquinho abre para o cocô passar e depois fecha.

- Cocô muito grosso não sai, né?

 

O bichinho fura-fura (cárie) entra na nossa boca quando a gente dorme sem escovar os dentes?

 

Quando eu dormir, esse dia vai passar?

 

Não é que tem que passar uma de cada vez? (brincando de passar roupa)

 

 

Não é que tem mamãe que não espera o filhinho botar o cinto de segurança? (ela feliz da vida com a nossa paciência de esperá-la ajeitar o próprio cinto – coisa que sabe fazer muito bem, aliás)

 



Escrito por Bebel às 17h40
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Quando elas crescem?

Outro dia foi minha vez de fazer perguntas nonsense para Letícia, que vive me enchendo de questões estapafúrdias. Apoiei suas bochechas nas minhas mãos e tasquei: “meu Deus, quando foi que você cresceu assim?” Ela arregalou os olhos, depois riu, vendo que eu estava brincando, e tentou responder com a confusão que sempre faz a respeito do tempo. “Acho que foi amanhã”. Só pode mesmo. Ela cresceu amanhã, porque continuará crescendo. E quando eu me der conta, estará usando meus sapatos pra valer, e não só pra brincar. Carolina está no mesmo caminho. Há duas semanas, quando saíamos para a consulta mensal com o pediatra, tentei usar os sapatinhos que comprei para ela usar na saída da maternidade. Mas ela não usou, nem deixando o hospital nem para aquela consulta, porque os sapatinhos saíam do pé. Hoje, quando fui experimentá-los novamente...não couberam!!! Simplesmente não entraram. Em duas semanas, ela perdeu os sapatinhos que nunca usou porque sambavam no pezinho. Eu tenho duas explicações nada científicas: as crianças crescem enquanto dormimos e também quando piscamos.



Escrito por Bebel às 17h38
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Milagres de Agosto

Agosto costumava ser o mês mais seco do ano em Brasília, o auge da estiagem. Jardins apagados, gramas amareladas e uma ausência de chuvas crônica que alimentam a saudade da estação molhada. Talvez por isso, e pela rima inglória com desgosto, eu tenha até torcido para que Carolina nascesse dia 31 de julho, mas não era o tempo dela, que seguia confortável dentro da minha barriga. Os dias passaram mais um pouco e a data marcada pelo destino chegou. Doze de agosto, teu aniversário, Carolina. Com teu nascimento, veio também a chuva inesperada e surpreendente, pondo fim precoce à seca. Tivemos vários dias de água caindo do céu em agosto, impedindo que os jardins secassem e que a grama murchasse. Ocupada com fraldas e mamadas, perdi o noticiário e fiquei sem saber o que justificava aquela chuva fora de época no Planalto Central. Sabia apenas, pela cultura aprendida nesses tempos vividos aqui, que não era normal. Algo atípico acontecia. E corria para a janela, com tua irmã, teu pai e tua avó, para observar o barulho das gotas nas folhagens do nosso jardim. Admirados ficávamos. “Está chovendo!”.

A chuva veio te receber, pequenina. Deus mandou regar os jardins e preparar as flores antes mesmo da Primavera chegar.

Os milagres começaram em agosto, nome que agora rima com teu rosto. Com teu nascimento, nossa casa cresceu, tua irmã amadureceu e eu virei menina novamente a brincar de boneca. Tão delicada, você, tão dependente do meu leite. A vida se emancipou e fomos todos, pai, mãe e irmã, envolvidos pelo amor espontâneo da terra fértil, molhada e vermelha, pelo milagre da vida parida em agosto. Hoje quando vejo teus olhos de fundo branco imaculado, e teu sorriso involuntário que, ouso dizer, responde às minhas gracinhas, sou apenas promessas. Vou te proteger, alimentar e amar, incondicionalmente e ferrenhamente, para o resto de minha vida. Você e Letícia são nossos milagres, filhas de imagem e semelhança tão próximas, mas de personalidades ainda misteriosas e, a princípio, indistintas.



Escrito por Bebel às 12h09
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A espera

 

- Carolina, vem pra cá!

- Não quero! Aqui ta gostoso.

- Mas aí não tem roupinha.

- Eu quero ficar aqui.

- Eu não posso entrar aí, você tem que vir para cá.

 

O diálogo acima foi entabulado por Letícia com ela mesma fazendo a voz da irmã que está na minha barriga. Das falas maravilhosas e frases memoráveis de Letícia durante toda essa gestação, os diálogos simulados são, sem dúvida, um dos campeões de graça e criatividade aqui em casa. No último sábado, pela primeira vez, ela me perguntou quando Carolina vai nascer. Sinal da inquietação e ansiedade que domina a casa, nossos sentimentos, nosso sono e o telefonema de todos os parentes e amigos. Haja explicação. O parto terá seu dia e hora. Está marcado, mas ninguém nos avisou. É preciso ter paciência e saber aguardar a certeza de um presente que vai chegar, de surpresa, para todos nós.



Escrito por Bebel às 15h57
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O mundo cor de rosa

 

Hoje de manhã, enquanto eu me preparava para sair, Letícia veio se despedir de mim. Ia brincar lá embaixo. Vestia uma camiseta pink e uma calça comprida rosa pescando siri, com o gancho no meio da coxa, porque, de tão apertada, a cintura já não estava mais na cintura.

-         Filha, essa roupinha não tá legal porque ficou pequena. Vamos mudar a calça?

Depois de resistir, ela concordou e voltou do quarto com uma saia rosa, igualmente velha e surrada. Deixei.

 Por que meninas gostam tanto de rosa? Para Letícia hoje nada presta se não for rosa. As roupas não servem, os enfeites não agradam e tudo torna-se tão mais bonito quanto mais rosa for. Seu quarto novo recém-inaugurado – oferecido numa troca justa, ela deu o dela antigo para a irmã que vai nascer – tem papel de parede rosa e branco, móveis brancos e uma linda colcha pink, que dá o tchan final na decoração.

 

Busquei algumas informações para tentar entender por que meninas gostam tanto de rosa e fiquei surpresa ao encontrar estudos em que neurocientistas da Newcastle University (UK) constatam uma predisposição genética em homens, por azul, e em mulheres, pelo rosa, ou por versões avermelhadas do azul, tendendo ao lilás. Isso significa que, enquanto tento convencer Letícia a usar shorts e calça jeans que ainda cabem nela (porque logo ficarão pequenas), estou indo contra sua mais primitiva natureza: ser menina.

 

Os cientistas afirmam ter interesse em ampliar a pesquisa para outros grupos culturais (o primeiro teve por base ingleses e chineses) e também abordar outras faixas etárias (esse estudo não envolveu crianças, mas jovens) para chegar a uma conclusão melhor sobre a distinção entre o que é predisposição de gênero às cores e o que é cultura aprendida.

Eu sugiro outro estudo: um que formule estratégias para convencer meninas de 3 anos e meio a usar as roupinhas que compramos com tanto carinho e que não são rosas.



Escrito por Bebel às 17h10
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O álbum de figurinhas

Faltam 20 figurinhas para Letícia completar seu primeiro álbum. A diversão que, eu achava, seria o entretenimento preferido de mãe e filha foi encampada, assumida e incentivada pelo pai. É ele quem chega em casa carregado de pacotinhos, ansioso por abrir e colar os adesivos no álbum dourado das princesas da Disney. Gente, o álbum é realmente uma graça. Tem figurinhas douradas, brilhantes, decalques de roupas para serem coladas em cima das modelos e um resumo da história das seis princesas que o compõem. Pai e filha ficam lá entretidos com a abertura dos pacotinhos e à procura dos números inéditos que faltam para completar páginas. Letícia olha os números e tenta identificá-los na página aberta por ele. Eles, só eles, sabem o que já têm no álbum e o que não tem. Para mim, tudo parece novidade, mas ela me corrige. “Não, mamãe, essa já tem”. Se ele viaja a trabalha, pior ainda. Não dá para competir. Vem carregado de pacotinhos. Nem me conta quanto gastou no hobby. Tem tanta figurinha repetida que estou pensando em comprar um álbum só para mim. O pai teve a idéia primeiro, mas Letícia sugeriu que ele compre o dos príncipes. Como não tem rainha boa em história nenhuma, acho que ficarei sem álbum mesmo.

Mesmo sem ter uma participação tão ativa nesta coleção, voltei à infância junto com eles. Um dos meus programas de domingo favoritos era comprar figurinhas na banca de jornais. E não é que era coisa que eu fazia com meu pai? Só me lembro de ter completado um (O bem me quer, ou Quem me quer, ou algo assim). Fiquei por uma, apenas um, no Amar É...o primeiro com figurinhas auto-colantes! Aliás, seria ótima idéia reeditá-lo, mesmo sem nunca ter namorado, eu achava o máximo as conclusões sobre o que era o amor. As figurinhas repetidas prestavam para trocar com as amigas e enfeitar o alto dos cadernos.

Letícia já entendeu quase todo o mecanismo de se colecionar figurinhas, depois de se confundir um pouco no início, quando ela torcia por repetidas. “Tomara que eu já tenha, né?”. “Nãooooo...filha”, a gente, em coro.

Como falta pouco para o final, é mais comum topar com números repetidos, o que torna a abertura dos pacotinhos uma seqüência de “puxa”, “que pena”, “não foi dessa vez”. Daí o que fez o pai? Comprou uns 17 pacotinhos, abriu alguns sem ela ver, selecionou apenas figurinhas inéditas e as devolveu aos envelopinhos preservados, dando uma disfarçada na violação. Quando ele me contou isso, durante o jantar, parei de comer, olhei para ele séria, disfarçando a vontade de rir, e disse.

-         Você não poderá protegê-la para sempre de decepções.

-         Mas eu só fiz isso com uma parte dos pacotinhos!!

-         Você está maquiando a realidade.

-         Não estou maquiando a realidade. Foi para a brincadeira ter mais graça.

 

HAHAHAHA.

 

A verdade, filha, é que a gente queria selecionar coisas boas para o resto da sua vida.



Escrito por Bebel às 15h58
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A dor de ensinar

Letícia, aos 3 anos é muito carinhosa e estabanada, como toda criança de 3 anos. Pela manhã, sua meiguice aflora. Volta e meia aparece ao meu lado da cama, às 6h da manhã, pedindo pra ficar um pouquinho comigo. A resposta é invariavelmente sim. Depois que ela se acomoda, segurando minha mão, abraçando algum pedaço de travesseiro ou da gente, ela volta a dormir e acorda dengosa, curtindo um abraço demorado e bobeirinhas ainda deitada. O dia vai passando e a energia vai tomando conta, até me recebeu com uma cabeçada nas maçãs do rosto ontem, de tão animada que estava. Eu, que às vezes reajo sem pensar, me segurei, mas meus olhos encheram d´água. Saí de perto, e sentei pra me recuperar. Letícia abriu o berreiro. Chorou, arrependidíssima e magoada consigo mesma pela besteira que fez. Trouxe-a para perto de mim, abracei e disse que compreendia que aquela não tinha sido a real intenção dela, mas expliquei que cabeçadas machucam, geralmente o outro, mas podem machucar ela mesma. É o tipo da brincadeira que não devemos fazer porque pode acabar mal e eu, que nem esperava algo assim, nem  tive tempo de me defender, fiquei com dor e tal, quando esperava um beijinho. Ela balançou a cabeça, fez que entendeu e prometeu não fazer mais. Mas o choro demorou a passar. Me deu mais dó dela do que de mim. Isso já aconteceu outras vezes. Uma vez no carro, estávamos com visita e muitos passageiros. O jeito foi tirar a cadeirinha dela e deixá-la no meu colo. Com minha barriga de 7 meses, a estratégia acabou se revelando uma furada na hora em que ela cismou que não queria sentar, ou encostar como se eu fosse uma poltrona. Estabanada e com reações violentas, me machucou, empurrou a barriga. Me irritei. Dei-lhe uma bronca daquelas e pedi para parar o carro porque eu ia dirigindo e o pai atrás. A malcriação mudou de tom, e Letícia chorou de soluçar, enquanto eu dirigia com o coração apertado. “Exagerei?”, perguntei ao Edu, depois, que me consolou. “Você fez o que tinha que fazer”. Ela não podia simplesmente continuar me empurrando como se eu fosse uma almofada. Outra oite, enquanto ela se apoiava nas minhas coxas para que eu limpasse seu bumbum no banheiro, resolveu brincar mas errou a dose. Em vez de mordidinhas levinhas que fazem cosquinhas, tascou aqueles dentinhos afiados num pedacinho bem pequeno de pele. Senti uma agulha entrando na minha coxa e gritei: “Ai Letícia!!”, pelo susto e pela dor. Ela, também assustada com minha reação, desatou a chorar magoada e triste. É um choro sentido de partir o coração. Prometi a mim mesma tentar, mesmo nessas horas, segurar a reação involuntária e dar uma aulinha de bom comportamento, mostrando como esse tipo de coisa pode doer e dar um susto na gente, ainda mais quando não estamos esperando. A cena sempre termina num abraço apertado, e comigo dizendo coisas para acalmá-la, que eu a amo acima de tudo, que adoro brincar, mas que nós precisamos nos preocupar com o que o outro pode sentir se não medirmos a força e a hora de fazer as brincadeiras. É duro ensinar.



Escrito por Bebel às 22h47
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A primeira nota na escola

 

Tivemos a primeira reunião na escola para receber a avaliação bimestral de Letícia. Seu desempenho, em todos os quesitos, recebeu a nota ótimo das professoras, numa escala que só chega até aí mesmo. “Letícia é uma florzinha”, começou, com um sorriso no rosto, a professora. O resumo se desenrolou em elogios à sua inteligência e à sua capacidade de elaborar perguntas, engraçadas, críticas e pertinentes. Letícia estabeleceu laços de amizades com duas meninas menores – até porque ela é a mais velha e a mais alta da turma. Não empurra, não bate, não briga e costuma recorrer às professoras quando é importunada de maneira agressiva, demonstrando ter entendido exatamente nossa orientação. A gente agora diz que ela não é obrigada a ficar brincando com quem a trata mal, e que se algum coleguinha insistir em brincadeiras que não estão agradando, para ela simplesmente sair fora e dizer o por quê. Letícia desenha muito bem para sua idade, e já esboçou bonecas perfeitas, com olhos, nariz, boca, cabelo e corpo alongado de onde saem braços e pernas proporcionais (vide acima). No dia das mães, ganhei um porta-guardanapos customizado por uma pintura dela. Havia uma boneca desenhada. “Sou eu, filha?”

“Não, essa sou eu!”

É que nosso cabelo está do mesmo tamanho e eu não consegui diferenciar os traços...



Escrito por Bebel às 14h33
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A irmã mais velha

 

 

Depois de me apelidar de Geléia, aceitar rindo que eu a chame de Manteiga, e acatar a sugestão de o pai ser Requeijão, Letícia decidiu que Carolina será Berinjela, mas no dia seguinte mudou para Mingau.

“Vem cá, Geléia!”, fica a pequena me provocando entre gargalhadas, achando tudo muito engraçado.

Letícia é essa gaiatinha de três anos, que adora fazer palhaçada pra Carolina, a quem também chama de Bimbinha e Pitchuquinha. Adora que o pai vá pegá-la na escola, abre o maior sorriso e costuma apresentá-lo aos amiguinhos com orgulho indisfarçável: “esse é o meu papai”. Quando chego em casa ainda corre e me abraça como se não me visse há dias e já aprendeu, sedutora, a tentar comover-me pela manhã ao anunciar que “sentirá saudades” quando eu for trabalhar. Letícia é muito carinhosa e, se não estiver meio cheia de grude, deixa que a gente a aperte, abrace e beije infinitamente, principalmente logo após acordar. É uma delícia. Será uma excelente irmã mais velha. Adora repetir comigo as lições de como cuidar de um bebê pequeno, e ouve intrigada revelações que faço aos poucos. “Carolina nascerá sem dentes e não saberá sentar”. Mesmo antevendo as implicâncias naturais dessa relação tão delicada, sei que Letícia defenderá e protegerá Carolina acima de todas as coisas. Torço, sobretudo, para que elas compreendam logo que vieram parar na mesma família por acaso, mas poderão ser amigas de coração para sempre.



Escrito por Bebel às 14h25
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Até quando?

Letícia anda com mania de falar pra mim: "mamãe, queria tanto falar que nem você..."

Não sei exatamente a que ela se refere. Outro dia ela foi mais específica. "Mamãe, queria tanto falar bonito que nem você. Eu sou parecida com você?", me perguntou, quando estávamos diante do espelho. Eu digo que ela fala lindamente, tão lindamente quanto eu, e que é muito mais bonita, mas ela não se convence. Resta-me suspirar, rir e enchê-la de beijos, torcendo para essa admiração tão sem propósito e crítica durar para sempre.

 



Escrito por Bebel às 23h11
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Ela sabe ler?

Edu e Letícia brincam na bancada da cozinha de operar alguns animais de pelúcia. Começam pelo gatinho.  O pai pede "faca?", ela passa a faca (calma gente, de manteiga!!). Colher? Ela passa a colher. Aí segue:

- Remédio para dormir?

Letícia pega a homeopatia em cima da prateleira e passa para ele. Edu questiona.

- Tem certeza que esse é o remédio de dormir?

Com o frasco na mão, ela olha atentamente o rótulo e conclui:

- Tenho. Aqui tá escrito "dormir".

 



Escrito por Bebel às 23h01
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O conto de dormir

Faz meses já que Letícia gosta de dormir ouvindo a história “do Saci”. A história do Saci, na verdade, começa na cozinha da tia Anastácia, com um bolo de cenoura e cobertura de chocolate feito para o lanche das crianças que some enquanto esfria na janela. O mistério só é desfeito no final, pelo Saci, daí a história do Saci. Antes disso, porém, tia Anastácia acha que foi a Emília, a Emília acha que foi o Saci até que se descobre a verdade. O comilão do Rabicó era o larápio compulsivo por bolos. No início, Letícia pedia para entrevistar os personagens. Começava perguntando para tia Anastácia o que tinha acontecido. Numa segunda etapa, ela começou a contar para todo mundo que o ladrão era o Rabicó. Contava pra tia Anastácia, pra  Narizinho, pra Emília até chegar no Saci e a criatura, seguindo o conselho da própria Letícia, ir até o curral descobrir a verdade. Depois Letícia começou a espalhar a discórdia. Dizia pra Tia Anastácia que a culpada era a Emilia, dizia pra Emília que o culpado era o Saci até chegar no Saci e contar a verdade. Depois ela entrou numa de pedir perdão para o Rabicó, implorar que tia Anastácia desse outro pedaço de bolo para ele e ainda fechar a defesa com uma linda declaração de carinho. “Eu te amo, Rabicó”. Agora, está cada vez mais difícil contar a história, não só por causa das interrupções que às vezes começam logo no “era uma vez”, mas por causa de suas mais novas reivindicações. Antes de começar a história , ela pede a inclusão de determinados personagens. Já passamos pela fase de a Cuca aparecer, a Carochinha, o Pequeno Polegar, a fada Sininho até que ela resolveu me cobrar a presença do Minotauro. Pra quem não lembra nada de mitos gregos, nem dos episódios do Sítio do Picapau Amarelo, era aquele monstro com cabeça de touro e corpo de homem. Quando a história acabou sem que eu tivesse incluído o monstro em conto tão singelo, ela cobrou. “Você não colocou o Minotauro na história!”. Haja criatividade.



Escrito por Bebel às 23h52
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O provavelmente

Letícia mexe novamente na caixa de bijuterias que fica em minha cabeceira.

- Ih, mamãe, tá quebrado

Ela me mostra um colar arrebentado.

-  Alguém arrebentou, não foi Letícia?

- Quem, eu?

- Provavelmente – respondo.

- Então provavelmente eu acho que foi você.



Escrito por Bebel às 23h39
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