Antes (e depois) de tua chegada
   



BRASIL, Mulher, de 26 a 35 anos, Portuguese, English
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O mundo cor de rosa

 

Hoje de manhã, enquanto eu me preparava para sair, Letícia veio se despedir de mim. Ia brincar lá embaixo. Vestia uma camiseta pink e uma calça comprida rosa pescando siri, com o gancho no meio da coxa, porque, de tão apertada, a cintura já não estava mais na cintura.

-         Filha, essa roupinha não tá legal porque ficou pequena. Vamos mudar a calça?

Depois de resistir, ela concordou e voltou do quarto com uma saia rosa, igualmente velha e surrada. Deixei.

 Por que meninas gostam tanto de rosa? Para Letícia hoje nada presta se não for rosa. As roupas não servem, os enfeites não agradam e tudo torna-se tão mais bonito quanto mais rosa for. Seu quarto novo recém-inaugurado – oferecido numa troca justa, ela deu o dela antigo para a irmã que vai nascer – tem papel de parede rosa e branco, móveis brancos e uma linda colcha pink, que dá o tchan final na decoração.

 

Busquei algumas informações para tentar entender por que meninas gostam tanto de rosa e fiquei surpresa ao encontrar estudos em que neurocientistas da Newcastle University (UK) constatam uma predisposição genética em homens, por azul, e em mulheres, pelo rosa, ou por versões avermelhadas do azul, tendendo ao lilás. Isso significa que, enquanto tento convencer Letícia a usar shorts e calça jeans que ainda cabem nela (porque logo ficarão pequenas), estou indo contra sua mais primitiva natureza: ser menina.

 

Os cientistas afirmam ter interesse em ampliar a pesquisa para outros grupos culturais (o primeiro teve por base ingleses e chineses) e também abordar outras faixas etárias (esse estudo não envolveu crianças, mas jovens) para chegar a uma conclusão melhor sobre a distinção entre o que é predisposição de gênero às cores e o que é cultura aprendida.

Eu sugiro outro estudo: um que formule estratégias para convencer meninas de 3 anos e meio a usar as roupinhas que compramos com tanto carinho e que não são rosas.



Escrito por Bebel às 17h10
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O álbum de figurinhas

Faltam 20 figurinhas para Letícia completar seu primeiro álbum. A diversão que, eu achava, seria o entretenimento preferido de mãe e filha foi encampada, assumida e incentivada pelo pai. É ele quem chega em casa carregado de pacotinhos, ansioso por abrir e colar os adesivos no álbum dourado das princesas da Disney. Gente, o álbum é realmente uma graça. Tem figurinhas douradas, brilhantes, decalques de roupas para serem coladas em cima das modelos e um resumo da história das seis princesas que o compõem. Pai e filha ficam lá entretidos com a abertura dos pacotinhos e à procura dos números inéditos que faltam para completar páginas. Letícia olha os números e tenta identificá-los na página aberta por ele. Eles, só eles, sabem o que já têm no álbum e o que não tem. Para mim, tudo parece novidade, mas ela me corrige. “Não, mamãe, essa já tem”. Se ele viaja a trabalha, pior ainda. Não dá para competir. Vem carregado de pacotinhos. Nem me conta quanto gastou no hobby. Tem tanta figurinha repetida que estou pensando em comprar um álbum só para mim. O pai teve a idéia primeiro, mas Letícia sugeriu que ele compre o dos príncipes. Como não tem rainha boa em história nenhuma, acho que ficarei sem álbum mesmo.

Mesmo sem ter uma participação tão ativa nesta coleção, voltei à infância junto com eles. Um dos meus programas de domingo favoritos era comprar figurinhas na banca de jornais. E não é que era coisa que eu fazia com meu pai? Só me lembro de ter completado um (O bem me quer, ou Quem me quer, ou algo assim). Fiquei por uma, apenas um, no Amar É...o primeiro com figurinhas auto-colantes! Aliás, seria ótima idéia reeditá-lo, mesmo sem nunca ter namorado, eu achava o máximo as conclusões sobre o que era o amor. As figurinhas repetidas prestavam para trocar com as amigas e enfeitar o alto dos cadernos.

Letícia já entendeu quase todo o mecanismo de se colecionar figurinhas, depois de se confundir um pouco no início, quando ela torcia por repetidas. “Tomara que eu já tenha, né?”. “Nãooooo...filha”, a gente, em coro.

Como falta pouco para o final, é mais comum topar com números repetidos, o que torna a abertura dos pacotinhos uma seqüência de “puxa”, “que pena”, “não foi dessa vez”. Daí o que fez o pai? Comprou uns 17 pacotinhos, abriu alguns sem ela ver, selecionou apenas figurinhas inéditas e as devolveu aos envelopinhos preservados, dando uma disfarçada na violação. Quando ele me contou isso, durante o jantar, parei de comer, olhei para ele séria, disfarçando a vontade de rir, e disse.

-         Você não poderá protegê-la para sempre de decepções.

-         Mas eu só fiz isso com uma parte dos pacotinhos!!

-         Você está maquiando a realidade.

-         Não estou maquiando a realidade. Foi para a brincadeira ter mais graça.

 

HAHAHAHA.

 

A verdade, filha, é que a gente queria selecionar coisas boas para o resto da sua vida.



Escrito por Bebel às 15h58
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A dor de ensinar

Letícia, aos 3 anos é muito carinhosa e estabanada, como toda criança de 3 anos. Pela manhã, sua meiguice aflora. Volta e meia aparece ao meu lado da cama, às 6h da manhã, pedindo pra ficar um pouquinho comigo. A resposta é invariavelmente sim. Depois que ela se acomoda, segurando minha mão, abraçando algum pedaço de travesseiro ou da gente, ela volta a dormir e acorda dengosa, curtindo um abraço demorado e bobeirinhas ainda deitada. O dia vai passando e a energia vai tomando conta, até me recebeu com uma cabeçada nas maçãs do rosto ontem, de tão animada que estava. Eu, que às vezes reajo sem pensar, me segurei, mas meus olhos encheram d´água. Saí de perto, e sentei pra me recuperar. Letícia abriu o berreiro. Chorou, arrependidíssima e magoada consigo mesma pela besteira que fez. Trouxe-a para perto de mim, abracei e disse que compreendia que aquela não tinha sido a real intenção dela, mas expliquei que cabeçadas machucam, geralmente o outro, mas podem machucar ela mesma. É o tipo da brincadeira que não devemos fazer porque pode acabar mal e eu, que nem esperava algo assim, nem  tive tempo de me defender, fiquei com dor e tal, quando esperava um beijinho. Ela balançou a cabeça, fez que entendeu e prometeu não fazer mais. Mas o choro demorou a passar. Me deu mais dó dela do que de mim. Isso já aconteceu outras vezes. Uma vez no carro, estávamos com visita e muitos passageiros. O jeito foi tirar a cadeirinha dela e deixá-la no meu colo. Com minha barriga de 7 meses, a estratégia acabou se revelando uma furada na hora em que ela cismou que não queria sentar, ou encostar como se eu fosse uma poltrona. Estabanada e com reações violentas, me machucou, empurrou a barriga. Me irritei. Dei-lhe uma bronca daquelas e pedi para parar o carro porque eu ia dirigindo e o pai atrás. A malcriação mudou de tom, e Letícia chorou de soluçar, enquanto eu dirigia com o coração apertado. “Exagerei?”, perguntei ao Edu, depois, que me consolou. “Você fez o que tinha que fazer”. Ela não podia simplesmente continuar me empurrando como se eu fosse uma almofada. Outra oite, enquanto ela se apoiava nas minhas coxas para que eu limpasse seu bumbum no banheiro, resolveu brincar mas errou a dose. Em vez de mordidinhas levinhas que fazem cosquinhas, tascou aqueles dentinhos afiados num pedacinho bem pequeno de pele. Senti uma agulha entrando na minha coxa e gritei: “Ai Letícia!!”, pelo susto e pela dor. Ela, também assustada com minha reação, desatou a chorar magoada e triste. É um choro sentido de partir o coração. Prometi a mim mesma tentar, mesmo nessas horas, segurar a reação involuntária e dar uma aulinha de bom comportamento, mostrando como esse tipo de coisa pode doer e dar um susto na gente, ainda mais quando não estamos esperando. A cena sempre termina num abraço apertado, e comigo dizendo coisas para acalmá-la, que eu a amo acima de tudo, que adoro brincar, mas que nós precisamos nos preocupar com o que o outro pode sentir se não medirmos a força e a hora de fazer as brincadeiras. É duro ensinar.



Escrito por Bebel às 22h47
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A primeira nota na escola

 

Tivemos a primeira reunião na escola para receber a avaliação bimestral de Letícia. Seu desempenho, em todos os quesitos, recebeu a nota ótimo das professoras, numa escala que só chega até aí mesmo. “Letícia é uma florzinha”, começou, com um sorriso no rosto, a professora. O resumo se desenrolou em elogios à sua inteligência e à sua capacidade de elaborar perguntas, engraçadas, críticas e pertinentes. Letícia estabeleceu laços de amizades com duas meninas menores – até porque ela é a mais velha e a mais alta da turma. Não empurra, não bate, não briga e costuma recorrer às professoras quando é importunada de maneira agressiva, demonstrando ter entendido exatamente nossa orientação. A gente agora diz que ela não é obrigada a ficar brincando com quem a trata mal, e que se algum coleguinha insistir em brincadeiras que não estão agradando, para ela simplesmente sair fora e dizer o por quê. Letícia desenha muito bem para sua idade, e já esboçou bonecas perfeitas, com olhos, nariz, boca, cabelo e corpo alongado de onde saem braços e pernas proporcionais (vide acima). No dia das mães, ganhei um porta-guardanapos customizado por uma pintura dela. Havia uma boneca desenhada. “Sou eu, filha?”

“Não, essa sou eu!”

É que nosso cabelo está do mesmo tamanho e eu não consegui diferenciar os traços...



Escrito por Bebel às 14h33
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A irmã mais velha

 

 

Depois de me apelidar de Geléia, aceitar rindo que eu a chame de Manteiga, e acatar a sugestão de o pai ser Requeijão, Letícia decidiu que Carolina será Berinjela, mas no dia seguinte mudou para Mingau.

“Vem cá, Geléia!”, fica a pequena me provocando entre gargalhadas, achando tudo muito engraçado.

Letícia é essa gaiatinha de três anos, que adora fazer palhaçada pra Carolina, a quem também chama de Bimbinha e Pitchuquinha. Adora que o pai vá pegá-la na escola, abre o maior sorriso e costuma apresentá-lo aos amiguinhos com orgulho indisfarçável: “esse é o meu papai”. Quando chego em casa ainda corre e me abraça como se não me visse há dias e já aprendeu, sedutora, a tentar comover-me pela manhã ao anunciar que “sentirá saudades” quando eu for trabalhar. Letícia é muito carinhosa e, se não estiver meio cheia de grude, deixa que a gente a aperte, abrace e beije infinitamente, principalmente logo após acordar. É uma delícia. Será uma excelente irmã mais velha. Adora repetir comigo as lições de como cuidar de um bebê pequeno, e ouve intrigada revelações que faço aos poucos. “Carolina nascerá sem dentes e não saberá sentar”. Mesmo antevendo as implicâncias naturais dessa relação tão delicada, sei que Letícia defenderá e protegerá Carolina acima de todas as coisas. Torço, sobretudo, para que elas compreendam logo que vieram parar na mesma família por acaso, mas poderão ser amigas de coração para sempre.



Escrito por Bebel às 14h25
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Até quando?

Letícia anda com mania de falar pra mim: "mamãe, queria tanto falar que nem você..."

Não sei exatamente a que ela se refere. Outro dia ela foi mais específica. "Mamãe, queria tanto falar bonito que nem você. Eu sou parecida com você?", me perguntou, quando estávamos diante do espelho. Eu digo que ela fala lindamente, tão lindamente quanto eu, e que é muito mais bonita, mas ela não se convence. Resta-me suspirar, rir e enchê-la de beijos, torcendo para essa admiração tão sem propósito e crítica durar para sempre.

 



Escrito por Bebel às 23h11
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Ela sabe ler?

Edu e Letícia brincam na bancada da cozinha de operar alguns animais de pelúcia. Começam pelo gatinho.  O pai pede "faca?", ela passa a faca (calma gente, de manteiga!!). Colher? Ela passa a colher. Aí segue:

- Remédio para dormir?

Letícia pega a homeopatia em cima da prateleira e passa para ele. Edu questiona.

- Tem certeza que esse é o remédio de dormir?

Com o frasco na mão, ela olha atentamente o rótulo e conclui:

- Tenho. Aqui tá escrito "dormir".

 



Escrito por Bebel às 23h01
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O conto de dormir

Faz meses já que Letícia gosta de dormir ouvindo a história “do Saci”. A história do Saci, na verdade, começa na cozinha da tia Anastácia, com um bolo de cenoura e cobertura de chocolate feito para o lanche das crianças que some enquanto esfria na janela. O mistério só é desfeito no final, pelo Saci, daí a história do Saci. Antes disso, porém, tia Anastácia acha que foi a Emília, a Emília acha que foi o Saci até que se descobre a verdade. O comilão do Rabicó era o larápio compulsivo por bolos. No início, Letícia pedia para entrevistar os personagens. Começava perguntando para tia Anastácia o que tinha acontecido. Numa segunda etapa, ela começou a contar para todo mundo que o ladrão era o Rabicó. Contava pra tia Anastácia, pra  Narizinho, pra Emília até chegar no Saci e a criatura, seguindo o conselho da própria Letícia, ir até o curral descobrir a verdade. Depois Letícia começou a espalhar a discórdia. Dizia pra Tia Anastácia que a culpada era a Emilia, dizia pra Emília que o culpado era o Saci até chegar no Saci e contar a verdade. Depois ela entrou numa de pedir perdão para o Rabicó, implorar que tia Anastácia desse outro pedaço de bolo para ele e ainda fechar a defesa com uma linda declaração de carinho. “Eu te amo, Rabicó”. Agora, está cada vez mais difícil contar a história, não só por causa das interrupções que às vezes começam logo no “era uma vez”, mas por causa de suas mais novas reivindicações. Antes de começar a história , ela pede a inclusão de determinados personagens. Já passamos pela fase de a Cuca aparecer, a Carochinha, o Pequeno Polegar, a fada Sininho até que ela resolveu me cobrar a presença do Minotauro. Pra quem não lembra nada de mitos gregos, nem dos episódios do Sítio do Picapau Amarelo, era aquele monstro com cabeça de touro e corpo de homem. Quando a história acabou sem que eu tivesse incluído o monstro em conto tão singelo, ela cobrou. “Você não colocou o Minotauro na história!”. Haja criatividade.



Escrito por Bebel às 23h52
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O provavelmente

Letícia mexe novamente na caixa de bijuterias que fica em minha cabeceira.

- Ih, mamãe, tá quebrado

Ela me mostra um colar arrebentado.

-  Alguém arrebentou, não foi Letícia?

- Quem, eu?

- Provavelmente – respondo.

- Então provavelmente eu acho que foi você.



Escrito por Bebel às 23h39
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Novidades da escola

O bichinho fura-fura é a mais nova representação da cárie. A idéia partiu da escola. Aqui a gente inventou a história de Ornela, a bruxa banguela que comia muito doce e não escovava os dentes. Ornela envelheceu. A do bichinho fura-fura é novidade e, como tal, pegou. Letícia agora pede para escovar os dentes e vai correndo na frente. Até que ela pensou, e me disse:

- Mamãe, quando a gente pegar o avião para ir ao Rio de Janeiro, eu vou lá na casinha do fura-fura pedir para ele não furar meu dentinho.

 

O fura-fura, como vocês ficaram sabendo agora, mora no Rio de Janeiro. Eu sabia que deveria ter mais vantagens morar em Brasília.



Escrito por Bebel às 23h39
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O segundo filho

Meu coração acelerou descompassadamente. Ainda embreagada de sono, mas ansiosa demais para dormir, corri para fazer o teste da urina achando que reviveria toda a emoção da primeira gravidez. Mas não. Eu vivi outras emoções, mais densas, mais misteriosas. Um medo embebido em felicidade de ver tão fácil a vida se reproduzir em mim e o irrefreável processo de uma gravidez se iniciando. Era o tempo mostrando sua presença implacável no positivo do teste. Outra gestação pela frente, enquanto uma outra criança que fala, anda e me faz mil perguntas cresce e me demanda. Indiscutivelmente Letícia cresce. Eu queria ter 20 anos novamente para ganhar mais tempo depois. Fui abalroada por uma vontade doída de ver meus filhos envelhecerem e tive medo. No espelho, com cara de sono e coração disparado, eu sou uma mulher de 35 anos achando que a juventude está ficando para trás. Voltei para a cama e contei a novidade para um sonolento marido. Edu sorriu largo, me abraçou e me sugeriu, volte a dormir. Afinal, não eram nem 7 da manhã. Mas temos tanta coisa para providenciar pela frente, como dormir? Talvez por isso meu sono ande tão errático. Oscilo do cansaço à insônia. Desconfio que a barriga esteja demorando demais para crescer. Lá se vão 12 semanas de gravidez oficial e eu só agora tomo coragem para rascunhar essas linhas, contar que Letícia tem conversado diariamente com "meu bebê" - é assim que ela o chama - e me perguntado se ele já cresceu. Adoro ouvir que "sim, ele está crescendo". Entusiasmada, ela conta pra quem quiser ouvir que ganhará um quarto novo, que o antigo será do bebê para quem ela conta tudo, até que vai nadar um pouquinho.
Vivemos uma nova história, ainda cheia de mistérios, com uma grande certeza pela frente: alegrias nos esperam, muitas alegrias.



Escrito por Bebel às 18h04
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O espírito de Natal

 Aconteceu de novo. A primeira vez foi em janeiro de 2005. Estávamos eu e Edu no avião voltando de uma linda temporada natalina, com pinheiros de verdade cobertos de neve, lareira e família em volta da mesa, na casa de minha irmã, perto de Seattle. Estávamos, pois, ainda imbuídos do espírito de Natal, com imagens de vitrines coloridas e iluminadas coladas na memória e o amor da família ainda quente no peito. No avião, assistíamos a um filme sobre um duende em Nova York, coisa que ele era, mas ninguém acreditava, naturalmente. Daí veio a cena cativante. A população de Nova York se reúne no Central Park para cantar uma música natalina e, assim, ajudar a carruagem do Papai Noel a voar e terminar a entrega de presentes. Pessoas abraçadas e sorridentes entoavam "you'd better not cry, you'd better not shout, you'd better watch out I'm telling you why/Santa Claus is coming to town". Ao imaginar que o Papai Noel estava chegando, senti um nó na garganta. Os lábios tremeram e meus olhos marejaram. Continuei olhando para a frente a fim de disfarçar a emoção súbita diante de algo tão...idiota. Mas quando olhei para o lado, vi Eduardo com a mesma cara tensa, tentando se conter. Por solidariedade e alívio, choramos juntos. E rimos muito, claro.

Aí estávamos em casa no último domingo. Cena final da história de Tinker Bell, a Sininho do Peter Pan. Uma música "contos de fada" dublada recomendava "seja leal a vocêêêê/não importa o que você sabe fazer.../seja leal a você". Enquanto Letícia balbuciava os versos que ela já ouviu quinhentas vezes, foi me dando um nó na garganta, os lábios começaram a tremer e as lágrimas desabaram em silêncio, enquanto Sininho e outras fadas voavam em elipses douradas no céu de Londres. Enfim, foi emoção demais. Quando Eduardo olhou para trás a fim de comentar algo comigo e deparou com a cena, desabafou:

- Nossa, eu estava aqui tentando me segurar... - disse ele, com os olhos marejados também.

 Por lealdade a nós mesmos, choramos, sem Letícia perceber a dupla emocionada.

Só pode ser o espírito de Natal. Só pode.



Escrito por Bebel às 19h22
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Letícia está com um vocabulário cada vez mais elaborado, pontuado por relações causais bem aplicadas - Meu aquabrink está velho, por isso o Dedé me deu outro - e termos compostos, sendo o preferido "na verdade". A verdade tem aparecido nas situações mais inusitadas, segundo relatos de Letícia. Na verdade, ela não quer dormir, ela precisa mamar e ver tivisão. Na verdade, ela reconhece ter dificuldade para falar sílabas com s no meio, tipo "festa", "mosca" e "rosto', que ela costuma reproduzir como "feta", "moca" e "roto". Mas quando instada a falar corretamente, ela capricha no "s", com sotaque de...mineira? Qualquer coisa, menos o chiado carioca. Na verdade, estamos tentando mudar isso.
 
Eduardo também tem se empenhado em ensiná-la táticas para exigir respeito quando estiver no banheiro sozinha, sem ter de se trancar por dentro, como ela costuma fazer. Daí ela entra e ele bate na porta. Ela grita "tem gente!!!". Aí ele tenta abrir a porta, e ela grita "pelaí, pelaí, pelaí". Pra ser rápida, ela não consegue dar conta do "r".
 
Ontem à noite, o pai voltou com a história dos três porcos capitalistas que se recusam a dividir o que tem com o faminto lobo que nem força para soprar a casinha tem. Instigada por mim, Letícia foi entrevistar o lobo:
- Você é socialista?
- Não, é mentira daqueles porquinhos capitalistas, que não dividem o que tem, exploram os outros, para ter dinheiro...
Aí o pai entra em cena novamente e pergunta: Você é capitalista, Letícia?
- Não, mas quando eu crescer eu vou ser capitalista.


Escrito por Bebel às 17h23
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A festa

A casa estava iluminada, repleta de gente, pai, mãe, avô, avó, tias, primos grandes, primo pequeno...que farra. Todos aqui para a grande festa do Barney e seus amigos. Teve sol, teve chuva, mas teve também cama elástica, muita animação e brigadeiro. Letícia estava tão feliz que pediu até bis do rátibum. Passou o fim de semana todo chamando "Viníiiiiiiiiicius". Não teve pra ninguém. E Vinícius, depois de um tempo, claro,começou a fugir de tanto assédio. Primos de 8 anos não são feitos para receber tanto amor em forma de grude. Mas tinha também a Dindinha Ju, a titia Ana e a titia Sílvia para afogá-la em paparicos. O primo Fabrício que, por motivos de infra-estrutura, consegue fazer um aviãozinho de Letícia voar ainda mais alto. E o vovô Sergio? Deixou de ser o personagem de Little People para aparecer aqui em carne e osso, sair nas fotos, para sempre na festa de 3 aninhos...Não sei quando teremos tantas pessoas amadas sentadas de uma só vez na mesa de jantar, mas espero que seja logo, que seja breve.


Escrito por Bebel às 17h24
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Carta ao Papai Noel

Proponho a Letícia escrevermos uma carta para o Papai Noel. Achei que ela fosse deixar eu pegar na sua mãozinha ou que adotaríamos a estratégia de sempre, com ela me ditando o que gostaria de escrever. Nada disso. Primeiro ela bate na caneta que cai no chão e quebra. Depois me expulsa da cadeira onde queria ficar sozinha. Deixei a cena se desenrolar. Ela senta e, com a mão no papel, mira a ponta da caneta para o cantinho inferior da folha como quem vai escrever. Estala a língua como tivesse acabado de se lembrar de algo e me pergunta: como é a letra A mesmo?

Eu nunca soube que Letícia sabia da existência da letra A nem tinha idéia do que ela imaginava escrever com a letra A. Mostrei a letra A, que ela copiou como um enorme desenho do formato de uma ameba. Depois, finalmente, ela concordou em ter-me como guia na cartinha destinada ao Pólo Norte. E ainda pediu, ao bom velhinho, um presente para mim e para o pai.

 

Eram 4h28 da manhã. Dormíamos. Letícia apareceu no quarto. Com voz de quem ia pedir desesperadamente pra fazer xixi ou algo tão urgente quanto, disse ao que veio: mamãe...eu quero ir ao cinema!!

 

Ela acorda tarde, levanta, olha ao redor e sai andando rumo à cozinha sem dizer nada. Chegando lá, abre a geladeira e pergunta: onde está a minha boneca?

 

Chego do trabalho e ela vem me contar uma novidade. “Mamãe, a vovó me deu uma massinha nova porque a massinha nova que você me deu estragou e tá velha”

Escrito por Bebel às 19h48
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