Antes (e depois) de tua chegada
   



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Minha menina

Letícia é, definitivamente, uma menina. Largou a fralda aos dois anos. Dorme de calcinha desde que voltamos das férias, em fevereiro, e só deixa escapulir o xixi na cama em raríssimas ocasiões. Os culpados somos nós que, distraídos, permitimos que a neném beba muita água tarde da noite. Para evitar contratempos, cortamos a última mamadeira. Ela continua dormindo tarde, mas deixei de fazer desse hábito um cavalo de batalha. Como achar ruim chegar em casa e ser recepcionada na porta por uma filha festiva cheia de vontade de conversar? “Mamãeeeee...chegou mamãe? Chegou?”, ela grita de dentro de casa, quando ainda estou tentando abrir a porta. Eu abro com cuidado para não derrubá-la. “Chegou mamãe? Chegou?”, ela insiste sorrindo feliz, enquanto vira a bochecha para um beijinho e joga o que deveria ser meu para longe.

“Vem bincar tomigo, vem, mamae. Dá mão. Vamo lê livu?”.

Claro que eu vou, digo, enquanto saio andando e largando a bolsa no chão e sapatos pelo caminho, ela segurando firme meus dedos de qualquer jeito. Eu deveria lavar as mãos, mas ela não deixa. O tempo urge enquanto ela cresce e fala. Não podemos perdê-lo em coisas menores. Eu puxo conversa, pergunto como foi o dia, quem ela viu no parque. Ela atropela as informações, larga frases pela metade. Olha para o lado buscando palavras que desconhece e confirma ter encontrado com as amigas que viu há dois dias. Hoje, ontem, uma semana atrás...que diferença faz? Todas estiveram e estarão no parque qualquer hora dessas.

“Mamãe não tomou banho não? Ainda não?”, ela comenta, quando eu peço para ela deixar eu tomar banho. “Posso, filha?”. “Pode”, ela diz, sem muita convicção, para choramingar assim que eu ameaço deixar o quarto.

A hora do sono anda muito tarde. Deitamos juntas para o ritual da historinha e da cantoria lá pelas 22h e ficamos perdidas em gargalhadas sem fim. E daí que ela não quer dormir? Eu invento tanta melodia que sou incapaz de reproduzir novamente um só verso. Nem a letra. Às vezes fica bom, às vezes ruim, mas que diferença faz?

“Mamãe...”, ela cochicha no escuro do quarto. “Eu te amo...papai também”. Penso que ela ama o papai também ou que ele me ama também. A frase de dupla interpretação é perfeita. Eu retruco, replico, respondo. Depois tenho que parar, sob risco de a declaração de amor varar madrugada adentro. De repente, tudo se faz silêncio. Deixo Letícia cochichar sozinha até desistir da conversa. Às vezes ela senta na cama repentinamente, ensaiando uma palhaçada de neném. Fica inventando sons com a boca para ver se eu rio. Quando volta a deitar, finalmente boceja, vira para o lado, suspira e dorme. Até de manhã, quando será ainda mais menina.

Escrito por Bebel às 16h39
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