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Entrevista com os personagens
Letícia tem duas histórias preferidas, a da Branca de Neve e dos Três Porquinhos, contadas por mim e pelo Eduardo, necessariamente e invariavelmente. Se eu tento contar a do lobo com mania de assoprar a casa dos porquinhos, ela me corrige, reclama a versão do pai e me expulsa da cama. Cada qual com seu cada um. Dito isso, e dito também que ela já ouviu cada uma dessas histórias uma boa quantidade de vezes, a novidade é a entrevista com os personagens. Detalhe: com os personagens maus, tipo o lobo e a madrasta. São, realmente, os mais intrigantes.
No meio da história da Branca de Neve, ela me interrompe e chama “caçador!”. Eu tenho que encarnar o caçador e dizer “o que foi, Letícia?”. Daí ela segue:
- Por que você levou a Branca de Neve pala a floresta?
- Porque a Rainha Má mandou.
Não satisfeita, ela chama a Rainha Má. “Rainha Má?”. Lá vou eu encarnar a madrasta invejosa. “O que foi, Letícia?”, digo, com voz de rainha má.
- Po que você mandou o caçador levar a Branca de Neve pala a floresta? (o grau de complexidade dessa pergunta me surpreendeu)
- Porque eu não gosto dela.
- Por que você não gosta dela?
- Porque ela é muito bonita e isso me incomoda.
- Por que incomoda?
- Porque sou muito invejosa.
-Por que você é invejosa?
- Acho que não fui uma criança feliz.
- Por que você não foi uma criança feliz?
Letícia parece não ter limites para perguntar. Arrisco dizer que a rainha má nunca vez capoeira, balé, nem foi à piscina.
- Por que? – Letícia continua.
A mãe Bebel interrompe o interrogatório da rainha má.
- Filha ,vamos voltar para a história?
Ela concorda e me pede “então me conta a história da Branca de Neve”.
Olha, parece gozação. E eu acho que é.
Escrito por Bebel às 14h32
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O cansaço
Num belo sábado, eu acordei às 11h. Havia dormido aproximadamente dez horas ou mais, com uma leve interrupção pelo choro de Letícia de manhã, logo abafado pela santa intervenção de alguém que estava ali para isso. Quando Eduardo a levou para o parquinho, o silêncio voltou a reinar e eu, a dormir.
Esse dia deixou marcas profundas em mim porque me dei conta do quanto eu poderia estar bem disposta se não vivesse cansada. A conclusão parece óbvia, mas não é. Me dei conta de que tenho acordado cansada, trabalhado cansada, malhado, comido e dormido cansada, como se o cansaço fosse um item irremovível da minha rotina, tipo eu respiro e tenho cansaço, como tenho cabelo, vontades, fome, curiosidades, sem de fato percebê-lo como um entrave na minha disposição... Restaurada, percebi que o cansaço tem sido um companheiro teimoso que se aproveita do fato de eu não dormir nem quatro horas seguidas todas as noites. Bem, não quero falar disso agora. Quero enfatizar o incrível poder de recuperação dos nossos tecidos. Bastou-me uma noite, umazinha para eu sair da cama sem aquela sensação de que um arado havia passado por mim. O corpo se recupera.
A paciência, enquanto isso, é treinada. Letícia anda nos testando. Insiste em fazer o que proibimos e testa olhando no olho mesmo, aguardando uma reação qualquer irada nossa. Minha vingança é dizer com a maior calma do mundo que ela não me atende, eu não a atendo também. No jogo de resistência, ela perde, chora e eu aguardo. Manha, choro, pirraça, tem vários nomes essas manifestações. Sempre me achei impaciente para esse tipo de coisa, mas li que é bom respeitar os sentimentos da criança, ainda que não concordemos com ele ou com os choros inventados. “Pode chorar, filha, tudo bem, você quer chorar?”. E ela responde: “Eu quelo cholar só mais um pouquinho”. Meu dever é mostrar quem manda, o direito dela é chorar, então, ok ,vá em frente. Eu agüento porque não há nada que ela possa fazer para que eu deixe de amá-la absurdamente e incondicionalmente.
Eu olho para essa criança, que ora me provoca com choros forçados, ora me diverte com tiradas hilárias, e me lembro do tempo em que filhos eram um sonho ainda distante. Lembro-me de como trocávamos olhares cúmplices com ares de riso cada vez que deparávamos com uma criança batendo propositadamente com a cabeça na gôndola de um supermercado, ou quando comia algo improvável na primeira distração do adulto que a carregava, tipo, embalagem de papelão. Nós ríamos discretamente até das manhãs fabricadas que deixam tantos pais desconcertados com crianças-lagartixas esperneando no chão da loja, como se imaginássemos você, que nem existia, nos deixando em situação semelhante. Antecipávamos a alegria e o caos da lida com um ser pequeno, dependente, espontâneo e repleto de amor para dar. Eis você aqui de verdade, menina-canção, filha de mim, pacote completo, piada pronta com noites entrecortadas, um doutorado em administração de sentimentos humanos. Está tudo perfeito. Melhor do que o imaginado. Eu só queria mais um sábado daquele.
Escrito por Bebel às 23h42
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Ela é minha
Por vezes paro e olho para Letícia como se ela não fosse minha, porque não é mesmo. A mãe sai de cena e fica só o amor, sentado na platéia à sombra da luz voltada para ela. Nessas horas, vejo uma menina, de perninhas grossas, cabelos brilhantes, saudável e olhar sapeca. O amor me faz silêncio para vê-la brincar com o pai, ou fingindo decifrar a leitura. Com o dedinho, ela acompanha frases de um livro, enquanto inventa à sua maneira histórias que outro dia lhe contaram. Letícia, aos dois anos, queria saber ler, como não sabe pede "lê para mim". Quer pular de onde quer que seja e deu para reclamar nossa audiência para qualquer coisa. "Você quer ver, mamãe?". Mal sabe ela que eu queria ver tudo, o tempo todo. Que o amor por vezes carrega junto o medo, a onipotência, a vontade de controlar tudo para poder protegê-la. Nos tira da platéia para interferirmos no palco, quando deveríamos ficar ali, sem atrapalhar, a mãe e o silêncio, deste minuto em diante, para sempre. Mas, por enquanto, você é minha. Claro que é do papai também. Mas estou refletindo sobre o meu apego. Um dia ele cede.
Escrito por Bebel às 00h00
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O fedor e suas variações
Letícia entra no banheiro e o pai está ocupado com suas necessidades.
- Hum, aqui tem chelo - ela diz - Está mau cheloso.
Ela sai do banheiro, e fica com o nariz na fresta do batente.
- Que fedor. Eca! - Letícia, ainda fazendo observações. E ainda completa: "Que fedolento".
Tenho que admitir, achei sensacional a aplicação de tantos adjetivos para uma única situação.
Escrito por Bebel às 23h31
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Ah o amor...
Estamos no carro rumo a uma festa junina. Letícia num rompante apaixonado diz lá da cadeirinha dela.
- Mamãe, eu te amo.
- Eu te amo também filha.
- Papai, eu te amo.
- Eu te amo também Letícia - diz Edu.
Aí, ela tenta estabelecer outras relações e os pronomes atrapalham:
- Mamãe, papai me ama e te ama também. Papai me te ama. Tia Fávia me te ama. Tio Gelaldo me te ama. Júlia me te ama. Larissa me te ama. Todo mundo me te ama eu.
E dá para não me te amar uma criatura assim?
Estamos numa farmácia. Letícia me aguarda sentada num daqueles carrinhos de aluguel de shopping, mas dá de gritar.
- Mamãe, eu quelo tocolate.
Tento responder sem gritar, chego perto e digo: "peraí, filha, já vou te dar". Me afasto para buscar o que queria, ela grita de novo. "Mamãeeee, quelo tocolate, me dá tocolate". "Ok, filha, já vai, tá?", tento mostrar a ela como conversar sem gritar.
Ela grita mais alto ainda. "MAMÃEEEEE....". Olho espantada para a gritaria. "EU TE AAAAAAAAAAAMOOOOOOOOOO".
A farmácia inteira riu, embevecida. Imagina eu...
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Escrito por Bebel às 23h27
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