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BRASIL, Mulher, de 26 a 35 anos, Portuguese, English
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A Dindinha
Letícia dormia folgadamente no meu colo enquanto esperávamos – eu, ela e mamãe - Juliana desembarcar no Aeroporto Internacional JK. Eu, perdida em pensamentos, repetia para mim mesma como foi sensacional nossa idéia de escolher Juliana para madrinha de nossa primeira filha. Eu não sei de que fontes os pais bebem antes de escolher os padrinhos de seus filhos, mas nós chegamos quase intuitivamente à dinda Juliana.
Muitos entendem que o batismo é uma espécie de homenagem aos padrinhos, uma forma de estreitar os laços de amizade já existentes com gente que tem mais a ver com a gente do que com nossos filhotes (porque isso acontece, vínculos que não se sucedem). Pensam nos padrinhos como uma extensão natural da família, tipo, tem que ser o irmão ou a irmã da mãe e do pai, se só tiver um irmão de cada lado, então, é batata. Não precisa nem pensar muito. Ou os pais mais apocalípticos que tentam garantir para os filhos “pais substitutos” bem bacanas se acaso, um dia, eles faltarem. Há também quem pense nos presentes que seus filhos irão receber. Cada um com seus motivos. Nós pensamos na atenção que Juliana daria à Letícia, mesmo morando em Curitiba. Não critico outras motivações, mas este registro se destina a explicar para Letícia, num futuro não muito distante daqui, o que nós, pais, queríamos e desejamos todo esse tempo. No nosso caso, a premissa foi “nós amamos a Juju” e ela vai amar Letícia também. Nunca foi tão fácil acertar. Juliana é uma pessoa mais do que comprometida com o universo infantil. Profissionalmente falando também. Está para se formar em Pedagogia, trabalha com crianças e quer se dedicar às especiais, numa linda demonstração de um dom que não se aprende, o da solidariedade com as exceções. Juliana é minha primeira sobrinha, prima de Letícia em primeiro grau. Houve um tempo em que eu era “tia Bebel” e, embora ela já não me chame assim faz tempo, ainda posso ouvir a pirralha magrinha e de cabelos escorridos me chamando para brincar. Esse registro jamais se apagará.
Como toda criança pequena, Letícia também reage timidamente às visitas para assombro dos adultos que insistem no comentário óbvio. “Ficou tímida?”. “Claro que sim”, diria a própria Letícia, respondendo com sua mais nova mania fonética, o “claro” na frente de tudo. Com Juliana, no entanto, é sempre diferente. É conquista à primeira vista. Ju chegou sorridente, com os mais longos cabelos castanhos que já a vi exibir em 25 anos de vida, e o carinho de quem chegou entregando a uma pequena criança – e a nós, por tabela - seus poucos dias de férias. Ao desempenhar seu papel de madrinha, me faz questionar se eu tenho sido boa suficiente para os meus dois afilhados. Disponível, paciente, divertida e atenciosa, Juliana é uma madrinha quase perfeita (o defeito fica por conta do endereço, longe demais do nosso CEP). Na primeira semana, foi um tal de “minha dindinha” pra cá, “minha dindinha” pra lá, num chamego só. Nunca foi tão fácil sair para trabalhar. Não via traço de sofrimento naquela breve separação diária a que somos submetidas. Letícia chegou a dizer para mim “divirta-se”, ecoando a frase que eu repito para ela, quase todos os dias, antes de sair. Já levantava da cama feliz porque todo dia tinha algo “muito legal” para fazer com a Dindinha, como ir ao cinema, ao parquinho e ao shopping “toma suvete de tocolate”. Letícia usufrui de suas primeiras férias escolares sem nunca ter ido à escola, graças à Dindinha. Em troca a essa dedicação tão bacana, registrada em assíduos comentários para cada um dos textos postados neste blog desde que eu o inaugurei, a gente torce, reza, pede, insiste, solicita à Deus e demanda de todas as formas possíveis que Ele cuide dela, que a mantenha feliz, satisfeita e saudável como esteve para nós nesses dias de inesquecíveis férias em Brasília.
Escrito por Bebel às 20h43
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O Susto
Rodamos 30 e tantos quilômetros de estrada asfaltada e mais 12 de terra para chegarmos à fazenda Chapada Imperial, o ponto mais alto do Distrito Federal, com 1.342 metros de altitude. Mesmo com as janelas fechadas, era possível sentir o cheiro forte da poeira de barro dentro do carro. Do chão às árvores que ladeavam a esburaca estrada, a cor vermelha era uma só. O descampado seco do cerrado oferece uma vista infinita do horizonte plano. São as coisas bonitas daqui. O simpático caminho já dentro da propriedade onde passaríamos um domingo perfeito era menos poeirento. A fazenda é um enclave de cachoeiras límpidas, repleta de árvores altas, sombra e animais silvestres se readaptando à natureza. Araras voam rasteiro sobre nossas cabeças, tucanos abusados tentam comer do nosso prato, pavões passeiam livres como se fossem cachorros vira-latas e papagaios sobem nos nossos dedos quando convidados. Na sede da fazenda, um intrincado enlace de cabos de aço e madeiras indica a possibilidade de fazer arvorismo e tirolesa. Quando viu outras crianças descendo na tirolesa, que devia estar a uns oito metros do chão, Letícia pediu para ir. Edu me perguntou se ela podia descer no colo dele, naquela cadeirinha que de baixo parecia mais frágil que o mais fino dos galhos acima da minha cabeça. Sou medrosa, nunca fui chegada a esportes radicais e tenho um medo danado de altura. Primeiro eu disse não, óbvio, que idéia de jerico. Aí o não foi cedendo, até que a super-mãe entrou em cena e disse “então tá, mas eu vou primeiro para saber se é realmente seguro”. A escada que leva à plataforma de madeira construída no alto da árvore é torta, íngreme e estreita. Tem vãos largos e um corrimão praticamente suspenso no ar. Duas palafitas é tudo que sustenta a estrutura toda no chão. O resto vai preso na árvore. Um desafio à física e à minha compreensão sobre resistência de madeiras. Confio mais nos subprodutos do aço. Não há grades nas laterais ou qualquer coisa que separe a gente do vácuo. Subi nervosa com a alma paralisada na garganta. A escada fica ainda mais estreita quando vai chegando perto da plataforma. Lá em cima, me agarrei ao tronco, só para garantir, enquanto tentava imaginar quanto tempo eu agüentaria ficar pendurada caso tudo aquilo ruísse debaixo de mim. Superado o medo de altura, desci, sob aplausos de Letícia. Confesso que achei bem divertido. Depois foram Eduardo e Letícia, que chegou no chão com a cara mais feliz do mundo, pedindo para ir “de novo e sozinha”. Um delírio. Claro que não, filha.Instantes mais tarde, quando nos preparávamos para almoçar, Letícia saiu correndo em direção ao parquinho, onde ela já tinha brincado sozinha. Quando olhei de novo, vi que ela tinha passado direto pelo balanço, e seguia perigosamente para a escada íngreme, torta e estreita. Saí em disparada. E ela também. Quanto mais eu me aproximava, mais rápido ela subia, soltando as mãozinhas do corrimão acima de sua cabeça, acelerando a passada de pernas pelos degraus que até eu considerava altos demais. Eu ia chegando perto sem acreditar que ela insistia em subir, mesmo comigo atrás implorando para ela parar, em vão. Letícia ria achando tudo uma grande brincadeira. Consegui finalmente agarrar sua camisa quando já estava a mais de 4 metros do chão. Peguei firme no seu braço e descemos com cuidado. Meu nervosismo era tão grande que eu mal conseguia brigar com ela. Na primeira tentativa de falar, chorei, nervosamente. Letícia fez voz fininha de neném, pediu para dormir na rede, pediu colo, pediu chupeta, tentou fazer outra gracinha qualquer, que, em sua lógica neném, era a maneira de fazer eu parar de chorar, mas eu estava irritada e nervosa demais para achar graça nos truques de sempre. À noite tive insônia, imaginando que desfecho aquela cena, quase fictícia, poderia ter tido. Estresse pós-traumático. Irritação, medo, incapacidade. Depois uma fraqueza imensa tomou conta de mim ao imaginar as escadas estreitas e perigosas que Letícia poderá ter de cruzar ao longo de sua vida, sem que eu possa fazer nada. Os desdobramentos estarão muito além de mim, do pai, de qualquer um, dela mesma. Tudo bem, mas ao menos enquanto você for pequena, Letícia, me obedeça, por favor.
Escrito por Bebel às 12h01
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