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O espírito de Natal
Aconteceu de novo. A primeira vez foi em janeiro de 2005. Estávamos eu e Edu no avião voltando de uma linda temporada natalina, com pinheiros de verdade cobertos de neve, lareira e família em volta da mesa, na casa de minha irmã, perto de Seattle. Estávamos, pois, ainda imbuídos do espírito de Natal, com imagens de vitrines coloridas e iluminadas coladas na memória e o amor da família ainda quente no peito. No avião, assistíamos a um filme sobre um duende em Nova York, coisa que ele era, mas ninguém acreditava, naturalmente. Daí veio a cena cativante. A população de Nova York se reúne no Central Park para cantar uma música natalina e, assim, ajudar a carruagem do Papai Noel a voar e terminar a entrega de presentes. Pessoas abraçadas e sorridentes entoavam "you'd better not cry, you'd better not shout, you'd better watch out I'm telling you why/Santa Claus is coming to town". Ao imaginar que o Papai Noel estava chegando, senti um nó na garganta. Os lábios tremeram e meus olhos marejaram. Continuei olhando para a frente a fim de disfarçar a emoção súbita diante de algo tão...idiota. Mas quando olhei para o lado, vi Eduardo com a mesma cara tensa, tentando se conter. Por solidariedade e alívio, choramos juntos. E rimos muito, claro.
Aí estávamos em casa no último domingo. Cena final da história de Tinker Bell, a Sininho do Peter Pan. Uma música "contos de fada" dublada recomendava "seja leal a vocêêêê/não importa o que você sabe fazer.../seja leal a você". Enquanto Letícia balbuciava os versos que ela já ouviu quinhentas vezes, foi me dando um nó na garganta, os lábios começaram a tremer e as lágrimas desabaram em silêncio, enquanto Sininho e outras fadas voavam em elipses douradas no céu de Londres. Enfim, foi emoção demais. Quando Eduardo olhou para trás a fim de comentar algo comigo e deparou com a cena, desabafou:
- Nossa, eu estava aqui tentando me segurar... - disse ele, com os olhos marejados também.
Por lealdade a nós mesmos, choramos, sem Letícia perceber a dupla emocionada.
Só pode ser o espírito de Natal. Só pode.
Escrito por Bebel às 19h22
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