Antes (e depois) de tua chegada
   



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Milagres de Agosto

Agosto costumava ser o mês mais seco do ano em Brasília, o auge da estiagem. Jardins apagados, gramas amareladas e uma ausência de chuvas crônica que alimentam a saudade da estação molhada. Talvez por isso, e pela rima inglória com desgosto, eu tenha até torcido para que Carolina nascesse dia 31 de julho, mas não era o tempo dela, que seguia confortável dentro da minha barriga. Os dias passaram mais um pouco e a data marcada pelo destino chegou. Doze de agosto, teu aniversário, Carolina. Com teu nascimento, veio também a chuva inesperada e surpreendente, pondo fim precoce à seca. Tivemos vários dias de água caindo do céu em agosto, impedindo que os jardins secassem e que a grama murchasse. Ocupada com fraldas e mamadas, perdi o noticiário e fiquei sem saber o que justificava aquela chuva fora de época no Planalto Central. Sabia apenas, pela cultura aprendida nesses tempos vividos aqui, que não era normal. Algo atípico acontecia. E corria para a janela, com tua irmã, teu pai e tua avó, para observar o barulho das gotas nas folhagens do nosso jardim. Admirados ficávamos. “Está chovendo!”.

A chuva veio te receber, pequenina. Deus mandou regar os jardins e preparar as flores antes mesmo da Primavera chegar.

Os milagres começaram em agosto, nome que agora rima com teu rosto. Com teu nascimento, nossa casa cresceu, tua irmã amadureceu e eu virei menina novamente a brincar de boneca. Tão delicada, você, tão dependente do meu leite. A vida se emancipou e fomos todos, pai, mãe e irmã, envolvidos pelo amor espontâneo da terra fértil, molhada e vermelha, pelo milagre da vida parida em agosto. Hoje quando vejo teus olhos de fundo branco imaculado, e teu sorriso involuntário que, ouso dizer, responde às minhas gracinhas, sou apenas promessas. Vou te proteger, alimentar e amar, incondicionalmente e ferrenhamente, para o resto de minha vida. Você e Letícia são nossos milagres, filhas de imagem e semelhança tão próximas, mas de personalidades ainda misteriosas e, a princípio, indistintas.



Escrito por Bebel às 12h09
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