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Por quê, Mágico de Oz?'
O mais novo filme “favorido” da Letícia é O Mágico de Oz. Filmado em 1939, foi o primeiro a usar tecnologia em cores. Doroty, a menina incompreendida que foge de casa para salvar Totó, seu cachorrinho, da malvada vizinha, ensinou Letícia a falar suas primeiras palavras em inglês. É comovente ver Letícia interpretar, verdadeiramente comovida, a música “Somewhere over the Rainbow”, que na vozinha dela sai “lainbow” e fica fofíssimo. O resto eu não consigo reproduzir aqui. Mas ela se esforça para casar pelo menos as últimas sílabas com a sonoridade da música que não se cansa de ouvir e repetir.
Quanto à história, um resumo para quem não conhece. Quando tenta voltar para casa, Doroty é pega de surpresa por um furacão que a leva com casa e tudo para Oz, o lugar pra lá do arco-íris que sonhava conhecer. Lá, ela conhece o Leão, o Espantalho e o Homem de Lata, seus companheiros na viagem divertida e cantarolada que a Bruxa Má do Oeste tenta estragar. Tudo o que desejavam era chegar ao poderoso e, sabe-se depois, falastrão mágico que supostamente ajudaria Doroty a voltar para casa, o Leão a ganhar coragem, o Espantalho a ter seu desejado cérebro, e o Homem de Lata a receber o coração que lhe falta. Além da versão em película, Letícia deu para pedir que a gente conte a nossa versão antes de dormir. Meu esforço é fazer um resumo convincente, divertido e curto o suficiente para que eu não durma antes dela. Afinal, toda essa história do século passado leva mais de duas horas em filme. Até que me saio bem, não fossem as interrupções...
Vamos à de ontem.
“Era uma vez uma linda menina de cabelos vermelhos chamada Doroty. Ela morava numa fazenda muito legal com a tia Em e o tio Harry”.
- Por que ela molava numa fazenda? (dessa vez, Letícia realmente se superou. Nunca tinha perguntado isso)
- Porque lá todo mundo morava em fazenda, um lugar cheio de pato, galinha, porquinhos...
- Gilafa...
- Não filha, em fazenda não tem girafa.
- Leão...
- O leão ela vai encontrar depois. Vamos lá, que bichinhos moram numa fazenda?
- Gilafa...
- Tá bom ,deixa a girafa lá então.
“Doroty tinha uma cachorrinho pequenininho chamado Totó que a vizinha queria levar embora dali”.
- Por que a vizinha queria levar ele dali?
- Porque o Totó perseguia o gato dela de vez em quando.
- Mas por que o Totó perseguia o gatinho?
- Porque cachorros geralmente não gostam de gatos.
- E não gostam por quê?
- Gatos são meio chatinhos às vezes.
“A vizinha malvada conseguiu levar Totó embora com uma ordem judicial (eu sei, ela não entendeu isso aqui, mas felizmente não perguntou o que é uma ordem judicial) e o colocou dentro de uma cestinha, atrás da bicicleta. Totó, muito esperto, fugiu e voltou correndo para casa”.
- Eu não quelo que você leve meu sapinho embola para lavar porque eu quelo que ele fica aqui comigo pra brincar. (esse comentário foi apenas Letícia interagindo demais com a história e colocando o sapinho de dormir no lugar do Totó e, bem, espero que ela não me tenha comparado com a feiosa senhorita Gaunch. Depois refleti um pouco e passei a desconfiar que Letícia fez sim uma interpretação própria sobre ordem judicial: é esse poder supremo,inviolável e irrecorrível da ordem materna que quando declara “está na hora de dormir, está mesmo e fim de papo”).
“Quando Doroty viu o Totó entrando pela janela, quase não acreditou de tão feliz que ficou. Na mesma hora ela teve uma idéia, nada legal, mas teve uma idéia: resolveu fugir de casa para ...”
- Por que ela fugiu? (Letícia se antecipando à história...)
- Porque ela queria proteger o Totó da vizinha malvada (a culpa era do chato do gato, mas achei melhor não esticar a conversa)
“Mas, no meio do caminho, Doroty se arrependeu e ...”
- Por que ela se arrependeu?
- Porque ela ficou imaginando que a tia Em ficaria muito preocupada.
- Preocupada por que?
- Letícia, fugir de casa NUNCA é uma boa idéia, entendeu. Todo mundo fica triste e preocupado porque criança não pode andar sozinha por aí.
“Quando ela voltava para casa, o tempo fechou, as nuvens ficaram muito escuras porque uma tempestade se aproximava. Doroty tentou se proteger, mas o vento estava tão forte que derrubou a janela da casa. Ela caiu desmaiada e, enquanto dormia, o vento forte levou Doroty, Totó e a casa para um lugar muito distante e muito bonito onde havia várias plantas enormes, flores coloridas e fadas boas e más. Eles estavam em Oz”.
Letícia dormiu mais ou menos nesse ponto da história e deve ter sonhado com uma fazenda cheia de girafas.
Escrito por Bebel às 23h52
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Esperteza, teu nome é...
Letícia tem implicado demais com mamãe. Parece disputar com vovó toda e qualquer atenção de minha parte. Ela me quer exclusivamente e solitariamente. Como pai, a disputa é solidária e não lhe incomoda. Pelo contrário, ter-nos ao mesmo tempo é seu luxo preferido. A reação de menina mimada com vovó me irrita e Letícia sabe disso. Deixo claro que não gosto e que fico muito mais feliz quando a vejo sendo amiga da vovó, também na minha frente (porque quando não estou tudo rola às mil maravilhas...).
Dito isso, vamos para a cena seguinte. Letícia fez um escândalo, chorando ininterruptamente, recusando a comida e querendo meu colo, enquanto eu tentava tragar um prato de ravióli na praça de alimentação de um shopping. Não havia bronca, tentativa de brincar que a demovesse da chantagem. Enjoada e cansada de tentar comer num clima tão impropício, abandonei, contrariada, a comida (que estava bastante gostosa) e fomos embora. Eu com um embrulho de massa não mastigada boiando no fel do estômago. Letícia continuou pedindo colo e eu lhe disse que estava chateada demais com aquela cena para dar colinho. Entramos no carro. Eu em silêncio, percebia aquele parzinho de olhos atentos em cima de mim. Daqui a pouco, Letícia começa:
- Vovó boniiiiiiiiiiiiita? Oi vovó bonita.
A vovó ri. Eu continuo em silêncio.
- Mamãe, eu chamei a vovó de bonita
- Tá legal, Letícia.
- Mamãe, eu chamei a vovó de bonita. Você ficou feliz?
Escrito por Bebel às 23h36
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A Dindinha
Letícia dormia folgadamente no meu colo enquanto esperávamos – eu, ela e mamãe - Juliana desembarcar no Aeroporto Internacional JK. Eu, perdida em pensamentos, repetia para mim mesma como foi sensacional nossa idéia de escolher Juliana para madrinha de nossa primeira filha. Eu não sei de que fontes os pais bebem antes de escolher os padrinhos de seus filhos, mas nós chegamos quase intuitivamente à dinda Juliana.
Muitos entendem que o batismo é uma espécie de homenagem aos padrinhos, uma forma de estreitar os laços de amizade já existentes com gente que tem mais a ver com a gente do que com nossos filhotes (porque isso acontece, vínculos que não se sucedem). Pensam nos padrinhos como uma extensão natural da família, tipo, tem que ser o irmão ou a irmã da mãe e do pai, se só tiver um irmão de cada lado, então, é batata. Não precisa nem pensar muito. Ou os pais mais apocalípticos que tentam garantir para os filhos “pais substitutos” bem bacanas se acaso, um dia, eles faltarem. Há também quem pense nos presentes que seus filhos irão receber. Cada um com seus motivos. Nós pensamos na atenção que Juliana daria à Letícia, mesmo morando em Curitiba. Não critico outras motivações, mas este registro se destina a explicar para Letícia, num futuro não muito distante daqui, o que nós, pais, queríamos e desejamos todo esse tempo. No nosso caso, a premissa foi “nós amamos a Juju” e ela vai amar Letícia também. Nunca foi tão fácil acertar. Juliana é uma pessoa mais do que comprometida com o universo infantil. Profissionalmente falando também. Está para se formar em Pedagogia, trabalha com crianças e quer se dedicar às especiais, numa linda demonstração de um dom que não se aprende, o da solidariedade com as exceções. Juliana é minha primeira sobrinha, prima de Letícia em primeiro grau. Houve um tempo em que eu era “tia Bebel” e, embora ela já não me chame assim faz tempo, ainda posso ouvir a pirralha magrinha e de cabelos escorridos me chamando para brincar. Esse registro jamais se apagará.
Como toda criança pequena, Letícia também reage timidamente às visitas para assombro dos adultos que insistem no comentário óbvio. “Ficou tímida?”. “Claro que sim”, diria a própria Letícia, respondendo com sua mais nova mania fonética, o “claro” na frente de tudo. Com Juliana, no entanto, é sempre diferente. É conquista à primeira vista. Ju chegou sorridente, com os mais longos cabelos castanhos que já a vi exibir em 25 anos de vida, e o carinho de quem chegou entregando a uma pequena criança – e a nós, por tabela - seus poucos dias de férias. Ao desempenhar seu papel de madrinha, me faz questionar se eu tenho sido boa suficiente para os meus dois afilhados. Disponível, paciente, divertida e atenciosa, Juliana é uma madrinha quase perfeita (o defeito fica por conta do endereço, longe demais do nosso CEP). Na primeira semana, foi um tal de “minha dindinha” pra cá, “minha dindinha” pra lá, num chamego só. Nunca foi tão fácil sair para trabalhar. Não via traço de sofrimento naquela breve separação diária a que somos submetidas. Letícia chegou a dizer para mim “divirta-se”, ecoando a frase que eu repito para ela, quase todos os dias, antes de sair. Já levantava da cama feliz porque todo dia tinha algo “muito legal” para fazer com a Dindinha, como ir ao cinema, ao parquinho e ao shopping “toma suvete de tocolate”. Letícia usufrui de suas primeiras férias escolares sem nunca ter ido à escola, graças à Dindinha. Em troca a essa dedicação tão bacana, registrada em assíduos comentários para cada um dos textos postados neste blog desde que eu o inaugurei, a gente torce, reza, pede, insiste, solicita à Deus e demanda de todas as formas possíveis que Ele cuide dela, que a mantenha feliz, satisfeita e saudável como esteve para nós nesses dias de inesquecíveis férias em Brasília.
Escrito por Bebel às 20h43
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O Susto
Rodamos 30 e tantos quilômetros de estrada asfaltada e mais 12 de terra para chegarmos à fazenda Chapada Imperial, o ponto mais alto do Distrito Federal, com 1.342 metros de altitude. Mesmo com as janelas fechadas, era possível sentir o cheiro forte da poeira de barro dentro do carro. Do chão às árvores que ladeavam a esburaca estrada, a cor vermelha era uma só. O descampado seco do cerrado oferece uma vista infinita do horizonte plano. São as coisas bonitas daqui. O simpático caminho já dentro da propriedade onde passaríamos um domingo perfeito era menos poeirento. A fazenda é um enclave de cachoeiras límpidas, repleta de árvores altas, sombra e animais silvestres se readaptando à natureza. Araras voam rasteiro sobre nossas cabeças, tucanos abusados tentam comer do nosso prato, pavões passeiam livres como se fossem cachorros vira-latas e papagaios sobem nos nossos dedos quando convidados. Na sede da fazenda, um intrincado enlace de cabos de aço e madeiras indica a possibilidade de fazer arvorismo e tirolesa. Quando viu outras crianças descendo na tirolesa, que devia estar a uns oito metros do chão, Letícia pediu para ir. Edu me perguntou se ela podia descer no colo dele, naquela cadeirinha que de baixo parecia mais frágil que o mais fino dos galhos acima da minha cabeça. Sou medrosa, nunca fui chegada a esportes radicais e tenho um medo danado de altura. Primeiro eu disse não, óbvio, que idéia de jerico. Aí o não foi cedendo, até que a super-mãe entrou em cena e disse “então tá, mas eu vou primeiro para saber se é realmente seguro”. A escada que leva à plataforma de madeira construída no alto da árvore é torta, íngreme e estreita. Tem vãos largos e um corrimão praticamente suspenso no ar. Duas palafitas é tudo que sustenta a estrutura toda no chão. O resto vai preso na árvore. Um desafio à física e à minha compreensão sobre resistência de madeiras. Confio mais nos subprodutos do aço. Não há grades nas laterais ou qualquer coisa que separe a gente do vácuo. Subi nervosa com a alma paralisada na garganta. A escada fica ainda mais estreita quando vai chegando perto da plataforma. Lá em cima, me agarrei ao tronco, só para garantir, enquanto tentava imaginar quanto tempo eu agüentaria ficar pendurada caso tudo aquilo ruísse debaixo de mim. Superado o medo de altura, desci, sob aplausos de Letícia. Confesso que achei bem divertido. Depois foram Eduardo e Letícia, que chegou no chão com a cara mais feliz do mundo, pedindo para ir “de novo e sozinha”. Um delírio. Claro que não, filha.Instantes mais tarde, quando nos preparávamos para almoçar, Letícia saiu correndo em direção ao parquinho, onde ela já tinha brincado sozinha. Quando olhei de novo, vi que ela tinha passado direto pelo balanço, e seguia perigosamente para a escada íngreme, torta e estreita. Saí em disparada. E ela também. Quanto mais eu me aproximava, mais rápido ela subia, soltando as mãozinhas do corrimão acima de sua cabeça, acelerando a passada de pernas pelos degraus que até eu considerava altos demais. Eu ia chegando perto sem acreditar que ela insistia em subir, mesmo comigo atrás implorando para ela parar, em vão. Letícia ria achando tudo uma grande brincadeira. Consegui finalmente agarrar sua camisa quando já estava a mais de 4 metros do chão. Peguei firme no seu braço e descemos com cuidado. Meu nervosismo era tão grande que eu mal conseguia brigar com ela. Na primeira tentativa de falar, chorei, nervosamente. Letícia fez voz fininha de neném, pediu para dormir na rede, pediu colo, pediu chupeta, tentou fazer outra gracinha qualquer, que, em sua lógica neném, era a maneira de fazer eu parar de chorar, mas eu estava irritada e nervosa demais para achar graça nos truques de sempre. À noite tive insônia, imaginando que desfecho aquela cena, quase fictícia, poderia ter tido. Estresse pós-traumático. Irritação, medo, incapacidade. Depois uma fraqueza imensa tomou conta de mim ao imaginar as escadas estreitas e perigosas que Letícia poderá ter de cruzar ao longo de sua vida, sem que eu possa fazer nada. Os desdobramentos estarão muito além de mim, do pai, de qualquer um, dela mesma. Tudo bem, mas ao menos enquanto você for pequena, Letícia, me obedeça, por favor.
Escrito por Bebel às 12h01
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O orgulho
Eu estava atrasada para o trabalho, acordara indisposta, demorei a sair, e, quando desci, Letícia já tinha voltado da capoeira. Estava no jardim brincando com uma amiguinha e a babá. Quando me viu, ela correu na minha direção, escalando a ladeira de grama onde não deveria pisar, e me abraçou. Virou sorridente para a amiguinha e me apresentou: "Sofia, essa é a minha mamãe". Como a Sofia não tinha dado muita importância a isso, repetiu, até Sofia também vir me abraçar. Algo naquele sorriso e na espontaneidade do anúncio, deixou-me assim de...bola cheia. Fui toda inchada trabalhar lembrando da ênfase dada ao "ESSA é a minha mamãe". E ESSA é a minha filha.
Escrito por Bebel às 15h46
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A porta e o violão
Não sei quando exatamente Letícia começou com essa história de querer fazer tudo sozinha, mas posso indicar três marcos em seu caminho rumo à autonomia: o dia em que ela pulou o berço, num claro sinal de que era hora de passá-la para a cama; o dia em que ela abaixou as calças, fez xixi no penico e jogou o resultado de sua independência no meu vaso (não sei a data exata, mas posso reviver o temor que senti de que aquele xixi tivesse se espalhado pelo chão do banheiro); e o dia que ela destrancou a porta da sala. Isso aconteceu hoje de manhã.
Estávamos de saída para a capoeira, onde ela é quase a mascote da turma (as crianças têm de 5 anos para cima, e ela, só 2 anos e 7 meses). Letícia se adiantou enquanto eu fazia não sei o quê e abriu a porta. “Mamãe, eu abri a porta!”, disse-me, em tom de “lá lá lá lá lááááá lá”. E ficou assim por alguns instantes dentro do elevador se vangloriando do feito. “Eu tonsegui-i. Eu tonsegui-i, lá lá lá lá lááááá lá”. Tive que rir, até a derradeira conclusão. “Mamãe, eu já tô grande para abrir a porta...”.
Em casa, agora, há ordens expressas para tirar a chave da porta. Imagina esse tiquinho fugindo de casa!
No mesmo dia em que destrancou a porta, ela compôs sua primeira música ao violão. De repente, ouço Letícia começar um confuso enredo iniciado por um indefectível meu amor (musical, não?) e a história do lobo mau que ia correr, cair e escorregar. Ela segurava o violão no colo na posição esperada de uma musicista, com as duas mãos, uma badalando umas poucas notas, a outra apoiando, enquanto inventava os versos. Bem, nós filmamos esse momento único. Se ela um dia virar uma compositora famosa, nosso vídeo caseiro valerá milhões. Mas seja qual for seu futuro profissional, para nós já vale milhões de emoções.
Escrito por Bebel às 23h14
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Entrevista com os personagens
Letícia tem duas histórias preferidas, a da Branca de Neve e dos Três Porquinhos, contadas por mim e pelo Eduardo, necessariamente e invariavelmente. Se eu tento contar a do lobo com mania de assoprar a casa dos porquinhos, ela me corrige, reclama a versão do pai e me expulsa da cama. Cada qual com seu cada um. Dito isso, e dito também que ela já ouviu cada uma dessas histórias uma boa quantidade de vezes, a novidade é a entrevista com os personagens. Detalhe: com os personagens maus, tipo o lobo e a madrasta. São, realmente, os mais intrigantes.
No meio da história da Branca de Neve, ela me interrompe e chama “caçador!”. Eu tenho que encarnar o caçador e dizer “o que foi, Letícia?”. Daí ela segue:
- Por que você levou a Branca de Neve pala a floresta?
- Porque a Rainha Má mandou.
Não satisfeita, ela chama a Rainha Má. “Rainha Má?”. Lá vou eu encarnar a madrasta invejosa. “O que foi, Letícia?”, digo, com voz de rainha má.
- Po que você mandou o caçador levar a Branca de Neve pala a floresta? (o grau de complexidade dessa pergunta me surpreendeu)
- Porque eu não gosto dela.
- Por que você não gosta dela?
- Porque ela é muito bonita e isso me incomoda.
- Por que incomoda?
- Porque sou muito invejosa.
-Por que você é invejosa?
- Acho que não fui uma criança feliz.
- Por que você não foi uma criança feliz?
Letícia parece não ter limites para perguntar. Arrisco dizer que a rainha má nunca vez capoeira, balé, nem foi à piscina.
- Por que? – Letícia continua.
A mãe Bebel interrompe o interrogatório da rainha má.
- Filha ,vamos voltar para a história?
Ela concorda e me pede “então me conta a história da Branca de Neve”.
Olha, parece gozação. E eu acho que é.
Escrito por Bebel às 14h32
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O cansaço
Num belo sábado, eu acordei às 11h. Havia dormido aproximadamente dez horas ou mais, com uma leve interrupção pelo choro de Letícia de manhã, logo abafado pela santa intervenção de alguém que estava ali para isso. Quando Eduardo a levou para o parquinho, o silêncio voltou a reinar e eu, a dormir.
Esse dia deixou marcas profundas em mim porque me dei conta do quanto eu poderia estar bem disposta se não vivesse cansada. A conclusão parece óbvia, mas não é. Me dei conta de que tenho acordado cansada, trabalhado cansada, malhado, comido e dormido cansada, como se o cansaço fosse um item irremovível da minha rotina, tipo eu respiro e tenho cansaço, como tenho cabelo, vontades, fome, curiosidades, sem de fato percebê-lo como um entrave na minha disposição... Restaurada, percebi que o cansaço tem sido um companheiro teimoso que se aproveita do fato de eu não dormir nem quatro horas seguidas todas as noites. Bem, não quero falar disso agora. Quero enfatizar o incrível poder de recuperação dos nossos tecidos. Bastou-me uma noite, umazinha para eu sair da cama sem aquela sensação de que um arado havia passado por mim. O corpo se recupera.
A paciência, enquanto isso, é treinada. Letícia anda nos testando. Insiste em fazer o que proibimos e testa olhando no olho mesmo, aguardando uma reação qualquer irada nossa. Minha vingança é dizer com a maior calma do mundo que ela não me atende, eu não a atendo também. No jogo de resistência, ela perde, chora e eu aguardo. Manha, choro, pirraça, tem vários nomes essas manifestações. Sempre me achei impaciente para esse tipo de coisa, mas li que é bom respeitar os sentimentos da criança, ainda que não concordemos com ele ou com os choros inventados. “Pode chorar, filha, tudo bem, você quer chorar?”. E ela responde: “Eu quelo cholar só mais um pouquinho”. Meu dever é mostrar quem manda, o direito dela é chorar, então, ok ,vá em frente. Eu agüento porque não há nada que ela possa fazer para que eu deixe de amá-la absurdamente e incondicionalmente.
Eu olho para essa criança, que ora me provoca com choros forçados, ora me diverte com tiradas hilárias, e me lembro do tempo em que filhos eram um sonho ainda distante. Lembro-me de como trocávamos olhares cúmplices com ares de riso cada vez que deparávamos com uma criança batendo propositadamente com a cabeça na gôndola de um supermercado, ou quando comia algo improvável na primeira distração do adulto que a carregava, tipo, embalagem de papelão. Nós ríamos discretamente até das manhãs fabricadas que deixam tantos pais desconcertados com crianças-lagartixas esperneando no chão da loja, como se imaginássemos você, que nem existia, nos deixando em situação semelhante. Antecipávamos a alegria e o caos da lida com um ser pequeno, dependente, espontâneo e repleto de amor para dar. Eis você aqui de verdade, menina-canção, filha de mim, pacote completo, piada pronta com noites entrecortadas, um doutorado em administração de sentimentos humanos. Está tudo perfeito. Melhor do que o imaginado. Eu só queria mais um sábado daquele.
Escrito por Bebel às 23h42
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Ela é minha
Por vezes paro e olho para Letícia como se ela não fosse minha, porque não é mesmo. A mãe sai de cena e fica só o amor, sentado na platéia à sombra da luz voltada para ela. Nessas horas, vejo uma menina, de perninhas grossas, cabelos brilhantes, saudável e olhar sapeca. O amor me faz silêncio para vê-la brincar com o pai, ou fingindo decifrar a leitura. Com o dedinho, ela acompanha frases de um livro, enquanto inventa à sua maneira histórias que outro dia lhe contaram. Letícia, aos dois anos, queria saber ler, como não sabe pede "lê para mim". Quer pular de onde quer que seja e deu para reclamar nossa audiência para qualquer coisa. "Você quer ver, mamãe?". Mal sabe ela que eu queria ver tudo, o tempo todo. Que o amor por vezes carrega junto o medo, a onipotência, a vontade de controlar tudo para poder protegê-la. Nos tira da platéia para interferirmos no palco, quando deveríamos ficar ali, sem atrapalhar, a mãe e o silêncio, deste minuto em diante, para sempre. Mas, por enquanto, você é minha. Claro que é do papai também. Mas estou refletindo sobre o meu apego. Um dia ele cede.
Escrito por Bebel às 00h00
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O fedor e suas variações
Letícia entra no banheiro e o pai está ocupado com suas necessidades.
- Hum, aqui tem chelo - ela diz - Está mau cheloso.
Ela sai do banheiro, e fica com o nariz na fresta do batente.
- Que fedor. Eca! - Letícia, ainda fazendo observações. E ainda completa: "Que fedolento".
Tenho que admitir, achei sensacional a aplicação de tantos adjetivos para uma única situação.
Escrito por Bebel às 23h31
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Ah o amor...
Estamos no carro rumo a uma festa junina. Letícia num rompante apaixonado diz lá da cadeirinha dela.
- Mamãe, eu te amo.
- Eu te amo também filha.
- Papai, eu te amo.
- Eu te amo também Letícia - diz Edu.
Aí, ela tenta estabelecer outras relações e os pronomes atrapalham:
- Mamãe, papai me ama e te ama também. Papai me te ama. Tia Fávia me te ama. Tio Gelaldo me te ama. Júlia me te ama. Larissa me te ama. Todo mundo me te ama eu.
E dá para não me te amar uma criatura assim?
Estamos numa farmácia. Letícia me aguarda sentada num daqueles carrinhos de aluguel de shopping, mas dá de gritar.
- Mamãe, eu quelo tocolate.
Tento responder sem gritar, chego perto e digo: "peraí, filha, já vou te dar". Me afasto para buscar o que queria, ela grita de novo. "Mamãeeee, quelo tocolate, me dá tocolate". "Ok, filha, já vai, tá?", tento mostrar a ela como conversar sem gritar.
Ela grita mais alto ainda. "MAMÃEEEEE....". Olho espantada para a gritaria. "EU TE AAAAAAAAAAAMOOOOOOOOOO".
A farmácia inteira riu, embevecida. Imagina eu...
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Escrito por Bebel às 23h27
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Vastas emoções
Amada filha,
Está passando rápido essa vida toda que temos pela frente. Você está com dois anos e meio e me surpreende dia após dia com suas observações. Fico com pressa de te apresentar o mundo e, cautelosa, vou aos poucos introduzindo temas novos nas nossas conversas. Eu não sei o quanto você entende, mas certamente capta mais do que imagino.
Ontem, cansada depois de muito correr por uma exposição, você pediu colo. Te carreguei até não poder mais. Quando te expliquei que estava cansada, você me inquiriu: “você num ‘toce’ meu carrinho pa eu dumi?”.
Outro dia te levamos ao Holiday on Ice. Lembrei de minhas idas ao Maracanãzinho. Só isso pode explicar a onda de emoção e as lágrimas que marejaram meus olhos quando o Pernalonga chegou ao palco. Você mal sabe quem é Pernalonga, mas me contou feliz que estava ali o coelhinho. Eu chorei. Gritou pela vovó quando o Frajola ameaçava comer o Piu-Piu e me perguntou, como sempre, curiosa e preocupada, onde estava o papai e a mamãe do gatinho, do coelhinho, do piu-piu, do “mau” (Diabo da Tasmânia) e daquele povo todo que patinava no gelo. Haja versões para te apresentar. Mas estávamos lá ao seu lado, seu pai, sua vovó e eu, no caso, submersa numa inexplicável comoção diante dos personagens que enfeitaram minha infância também.
Está tudo tão vivo na memória que fica difícil crer que tanto tempo tenha passado. Bem-vindo tempo, porque é chegado o nosso tempo.
Beijocas
Mamãe
A gente já se conhece bem, eu acho. Hoje você chorou muito na hora de sair da piscina, claro, estava tão legal. Expliquei que tínhamos pressa, afinal, papai ia viajar, a gente tinha que papar antes e tal. Não adiantou. Deixei você com seus desejos e lamentei não atendê-los. "Sinto muito, filha". Em casa, nada melhorava para entrar no banho. Você chorava e repetia que não queria sair da piscina. Te abracei e disse "nem eu". Aí você continuou chorando, batendo nas minhas costas de leve com a mãozinha, como se a consolada fosse eu. Aí te disse, "eu também não queria que teu pai fosse viajar", você chorou mais ainda e disse "nem eu...". Seu pai não viu a cena, tinha ido buscar o almoço, ou ele sairia ainda mais triste de casa. Quanta emoção para administrar, hein...Daqui a pouco, em uma semana, ele volta. ô saco.
Escrito por Bebel às 14h58
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Sábias conclusões de uma neném
“Eu tô muito dodói. Tô com coceira no meu braço”
...
“Você tem um peito muito bonito. O meu é pequenininho”
...
“Eu quero uma irmã grande” (estávamos no vestiário da academia, enquanto uma neném de um ano abria o berreiro)
...
Ainda no banheiro da academia, uma senhora a elogia.
- Você é muito linda.
- Essa é a minha mamãe. Ela também é muito linda.
...
“Eu tô muito pronta” (sobre ir para a aula de natação)
...
- Eu já comei.
- Eu comi - corrijo
- Nãooooo. Eu é que comi.
Ela não confunde mais eu com você.
“Eu não consigo voar”. Letícia chegando a uma conclusão triste depois de ver inúmeras vezes o filme Os Incríveis.
“Tetê, você não é superói.”
(Letícia dizendo para a babá uma verdade).
Escrito por Bebel às 14h47
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A língua do T
- Mamãe, vem brincar tomigo?
- Já tomi. Tomi tudinho (comi).
Deixo Letícia brincando e vou para a cozinha. Daqui a pouco, ela aparece com um ar muito sério:
- Eu tô sozinha no meu tarto!
Agora, quando ela quer combinar algo, levanta o dedão e manda “tombinado?”
- Papai já tá em tasa.
Escrito por Bebel às 14h46
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Mamãe e Letícia, segundo Letícia
Fica aqui um comentário de mãe que tem, pela primeira vez, uma criança de dois anos e meio em casa. Um dia eu disse que Letícia quase não fazia besteira, que não era do tipo que subia em mesa e se pendurava nas coisas. Eu disse? No mais, continuo me surpreendendo com a pequenininha. Ela agora desenha uma figura ovalada e coloca dois olhos, um nariz e uma boca, representada por um longo e fino traço que ultrapassa as fronteiras do ovo. Tudo no lugar certo. Fora de contexto só umas pintas que ela costuma espalhar. Ela acha que gente tem que ter pinta. O desenho abaixo, por exemplo, ela disse que sou eu. “É a mamãe”. Como hoje é o dia das mães, resgatei a homenagem para tentar eternizá-la aqui no blog. Achei genial. Ah, sim, e o desenho menor é ela. 
Escrito por Bebel às 23h24
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